Estudo e experiências na minha luta por Cidadania…Dias Melhores.

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Gilvan Pereira da Silva Lima

Gilvan Pereira da Silva Lima

Consultor REDEM – Brasil

 

Sou Gilvan, devido a problemas de oxigenação durante meu nascimento tenho paralisia cerebral, a qual afetou minha coordenação motora com sequelas nos membros superiores e inferiores, não chego a andar de cadeira de rodas ou muletas, mas devido as sequelas nas pernas ando devagar e do meu jeito. Minhas mãos possuem dificuldade em abrir e fechar. Para pegar ou fazer algo com as mãos, pego e faço também do jeito que consigo devido as limitações que tenho em ambas. Para digitar, o faço com mais firmeza com um dedo da mão esquerda que com o qual tenho mais facilidade para digitar, isso no computador, quando tenho que escrever manualmente, coloco a caneta ou lápis na mão esquerda atravessado entre os dedos. A letra sai tremida devido à dificuldade em segurar a caneta /lápis o que para muitos é meio difícil entendê-la, tornando-se mais fácil com a convivência.
Também tenho movimentos involuntários nos membros superiores e inferiores, faciais, sobretudo labiais. Também tenho dificuldade na fala, por isso no inicio quem não me conhece tem certa dificuldade em entender o que falo, mas com o passar do tempo e a convivência, essa dificuldade vai diminuindo, até mesmo desaparecendo. Tenho todas essas limitações, mas em relação ao meu cognitivo não possuo sequela alguma.
Na infância não frequentei escola, não apenas por não haver naquela época, toda essa mobilização que se tem hoje pela inclusão de alunos com deficiência na rede regular de ensino, como também por meu pai não consentir que frequentasse uma instituição de ensino, por não vê futuro nisso.
O fato é que na infância não frequentei escola nem especial nem de ensino regular, publico ou privado. Porém, fui alfabetizado em casa, não por nenhum professor particular, mas por minhas irmãs, principalmente a irmã mais velha, que se dedicou mais a minha alfabetização além de eu também aprender novas coisas por meio de estudos pessoais, tentando ler tudo de escrito que via pela frente.
Somente quando adulto e já alfabetizado é que vim frequentar escola sendo a primeira delas a APAE, a qual frequentei dois anos, indo logo depois para a rede regular de ensino.
Na rede regular de ensino de 2002 a março de 2003 estudei num colégio inclusivo, na época o colégio era referência em inclusão na cidade. Porém, por dificuldades de acessibilidade para ir e vir da escola, a maior parte de minha trajetória durante minha jornada escolar não se desenvolveria em uma instituição de ensino especial, nem em um colégio inclusivo. Mas deu-se num colégio publico estadual da rede regular de ensino perto de minha casa, o qual ainda não possuía uma estrutura apropriada para receber adequadamente alunos com deficiência, não tinha em seu quadro de professores e funcionários, profissionais especialistas na área da inclusão, não contava com sala de recursos multifuncionais e consequentemente com nenhum atendimento educacional especializado voltado para atender alunos com deficiência.
Contava sim, com professores capacitados para lecionar e ministrar aula das disciplinas nas quais foram formados, e que de inicio quando se depararam com um aluno com severa deficiência, recém-chegado no colégio, por mais que tentassem agir com naturalidade em relação a minha presença na sala de aula, era visível o desconserto em não saber como eu agiria, do que eu era capaz de aprender, desenvolver… Eu seria e de fato fui tanto para os professores quando para os demais colegas de classe com os quais convivi e tive lá, a primeira experiência de convivência e aprendizado com uma pessoa com deficiência.
E tivemos que nos acertar com o que tínhamos, ou seja, eu com as minhas limitações, tive que me virar, ser capaz de acompanhar a turma com a força de vontade, capacidade que possuía, sem nenhum recurso adicional a mais, os professores com a experiência de ensinar em sala de aula, de lidar com situações diversas em aula quando fosse preciso. Embora ter entre os alunos, um com deficiência nos membros superiores, nos membros inferiores, na fala, com falta de coordenação motora e com movimentos involuntários em várias partes do corpo, fosse uma situação com a qual, mesmo nem os mais experientes ainda não haviam se deparado, vivenciado.
Foi um desafio, tanto para eles quanto para mim que precisei provar capacidade. Capacidade de aprender, de responder as questões propostas, de realizar os trabalhos, pesquisas, todas as atividades exigidas dos alunos, capacidade de me fazer entender, de interagir com os docentes, alunos e demais funcionários. Foi um desafio que no inicio, muitos julgavam muito difícil e algumas pessoas até improvável. Mas foi um desafio que para espanto de muitos, aos poucos começou a ser superado. Uma luta que aos poucos foi sendo vencida com a convivência no dia-a-dia, aula por aula, com a persistência, com a paciência, com o desenvolver o respeito as diferenças.
Na medida em que escrevia, fazia todas as atividades, professores e alunos se aproximavam mais, tentando entender minha letra, me entender. Ao conseguirem entender o que eu escrevia, o passo seguinte era sempre conferir se as respostas escritas e atividades feitas por mim tinham coerência com as questões propostas, e aos poucos foram percebendo que apesar da minha deficiência física severa, não havia sequelas no meu cognitivo, e mesmo se houvesse, eu mereceria respeito da mesma forma.
Também foram aos poucos compreendendo melhor minha fala, facilitando nossa comunicação e ampliando mais a interação entre nós.
E assim, aos poucos, no passar dos dias, mas, principalmente, na convivência diária com a diferença, fomos nos conhecendo, nos respeitando e mais do que isso, fomos aprendendo e crescendo juntos. Tanto eu quanto outros colegas de classe, professores que viam o coleguinha, o aluno diferente que do jeito dele tava um jeito em tudo, vivenciando momentos inesquecíveis.
Certa vez, fazia poucos meses que estudava no colégio em questão, adoeci por isso não fui á aula. Naquele dia, a tarde, sentado numa cadeira na área de casa, de repente começo a ouvir um murmúrio como se fosse de um grupo de pessoas descendo a rua e qual não foi minha surpresa ao ver que eram os alunos da minha classe de aula! Foram atrás de mim, saber porquê eu não tinha ido á aula aquele dia já que não era de faltar e quando se depararam com o lugar onde eu costuma sentava vazio, estranharam demais e resolveram sair a minha buscar para saber o motivo da minha ausência. No dia sequente já melhor voltei as aula.
E além das atividades feitas em sala de aula, sempre que era passado trabalho em grupo, pesquisa para casa, como não havia como eu ir para a casa dos meus colegas, estes se deslocavam até a minha para fazer comigo não por pena, mas porque gostavam de fazer comigo, pois nossos trabalhos sempre rendiam momentos agradáveis além de boas notas. Lembro com muita alegria, dos trabalhos e pesquisas que fazíamos, (havia ocasiões que marcávamos para pesquisar na biblioteca do colégio de manhã ou à noite, pois estudávamos à tarde).
Claro que houve momentos de desilusões e incerteza quanto ao meu futuro. Pois, embora fosse bem nos estudos, o mundo não se resumia no ambiente escolar e ainda nos tempos de escola, já era ciente de que apesar de dedicação, minha pessoa, esforço e empenho nem sempre seriam levados em conta, respeitados em outros espaços sociais. E fatos, acontecimentos de exclusão sempre estavam presentes e a incerteza vez e outra vinha me rondar. Lembro-me que ás vezes no recreio eu observava os demais alunos, aquele ir e vir pelos corredores do colégio, aquela falação de alunos agitados por um motivo ou outro falando sobre mil coisas ao mesmo tempo e despercebidos de tantas outras. Nos momentos de reflexão, eu gostava de ver aquela agitação, aquele movimento de vida. Ficava pensando como seria quando concluísse os estudos? Haja vista que a realidade me impunha que dificilmente seria levado em conta, teria as mesmas oportunidades em outros ambientes sociais que os outros tinham. Mesmo que me dedicasse, até superasse os demais, tivesse excelente desempenho escolar, tirasse excelentes notas não porque os professores davam ou porque os demais alunos não eram bons, mas porque realmente as obtinha, conquistava pelo esforço e dedicação. Embora nunca tenha me preocupado em ser o aluno prodígio e tampouco em ser exemplo e menos ainda disso tenha me envaidecido, o que de fato isso significava diante de todo contexto sociocultural ao redor? Haja vista que fora do ambiente escolar para que alguém me visse como uma pessoa capaz, como um ser humano ao invés de uma aberração que fazia prodígios. Ainda era pedir demais, sonhar demais.
Certo tempo, consumido por uma dor (dor é um termo, uma expressão tão suave pra tentar descrever algo tão horrível que sentia) que dilacerava e mortificava meu ser devido a acontecimentos e fatores externos aos estudos que quase me fizeram parar de estudar. Foi um período conturbado. Mas apesar da desilusão que assolava meu ser naquele momento, não larguei os estudos..
E mesmo com todas as dificuldades, terminei meus estudos de ensino fundamental e médio. E antes concluir o ensino básico, ainda lancei um livro sobre poesias, pensamentos e histórias. Ás vezes fico pensando, sobre o fato de durante meus estudos na rede regular de ensino, eu não ter utilizado nenhum recurso assistivo ou adaptação, ter tido que lidar com essa falta de acessibilidade, de recursos, adaptações e consequentemente com a ausência de atendimento educacional especializado voltado para atender alunos com deficiência etc.
Na época eu não tinha conhecimento sobre tecnologia assistiva, comunicação alternativa e outros recursos que poderiam ter facilitado meus estudos para reivindicar. Apesar das dificuldades, hoje, reflito e chego à conclusão que, se tivesse tido algum auxílio inclusivo, alguma assistência que facilitasse meus estudos durante minha jornada na rede regular no ensino, diriam que só obtive êxito escolar devido a isso. Se eu não tivesse tido tal apoio, auxílio, atendimento educacional especializado etc., não teria tido êxito, nem ao menos conseguido concluir o ensino básico e muito menos chegar ao ensino superior.
Porém, embora durante o ensino básico eu nunca tenha tido adaptações, recursos assistivos que facilitassem o desenvolvimento das tarefas, trabalhos, pesquisas e demais atividades escolares, fui aos poucos conquistando o respeito de colegas e hoje, além da alegria de ter conseguido, como é bom rever, reencontrar pessoas (ex-professores, colegas de estudos) que em um determinado momento de minha vida acompanharam minha trajetória.
Ao concluir o ensino médio, prestei vestibular, passei e entrei para a universidade. Cursei letras em uma unidade local da Universidade do estado de Goiás onde sempre residi. E mesmo sendo de conhecimento geral que a inclusão no ensino regular nos níveis infantil, fundamental e médio ainda precisa avançar e melhorar muito, foi possível constatar sem surpresa alguma que, mesmo com todas as dificuldades, esses níveis de ensino estão bem mais preparados para receber estudantes com deficiência do que o ensino superior. Na Universidade devido as minhas limitações na fala e de coordenação motora que tornam difícil a escrita e comunicação, tive mais dificuldades, mas já ciente de adaptações e recursos que me eram garantidos por lei, depois de reivindicação e luta foi me disponibilizado um notebook que me serviu de caderno e uma professora auxiliar que me ajudou em minhas limitações durante a realização dos meus estágios em sala de aula.
. E aquele que [email protected] (com exceção de pessoas que realmente se dispuseram me conhecer) falavam que não chegaria a lugar algum, não teria futuro, chegou, cursou e concluiu o ensino superior. em 2014 Formei-me em Letras.
Sou consciente que mesmo com todas as limitações e dificuldades com as quais convivo e que praticamente inviabilizam a profissão de professor em sala de aula (pelo menos da forma tradicional) eu tenho capacidade e posso fazer muito na área da educação ou em outras. Além de poder trabalhar redigindo, revisando e traduzindo texto, livros… Pretendo fazer pós-graduação.
A área da EAD também é uma área na qual posso desenvolver diversas atividades como tutor online, professor conteúdista que é o profissional responsável pela elaboração do material de estudo, pesquisas… Enfim, as possibilidades para eu atuar e desenvolver projetos, pesquisas e trabalhos ao contrário do que possa parecer existem (basta que tenha oportunidade para eu mostrar o que posso fazer).
É lógico que é ilusório, até completa ingenuidade ou mesmo alienação crer que por ter ensino superior completo, todas as dificuldades desaparecerão, não se terá mais problemas e todas as portas se abrirão como num passe de mágica. Porém, partindo do pressuposto de que o estudo, sobretudo o do ensino superior quando levado a sério e concluído com dedicação deve servir para alguma coisa de útil, faz-se necessário constatar na prática o que de útil ele pode proporcionar, fazer a diferença na luta por cidadania, conquistas… Melhores dias!!!

Gilvan, pessoa com paralisia cerebral

4 COMENTARIOS

  1. Acabo de ler o artigo do Gilvan e estou bastante emocionado.
    Não com pena dele porque apesar de suas dificuldades eu considero as pessoas com deficiência, pessoas normais por serem tão humanos quanto os que não têm deficiência visivil.
    gostaria de poder trocal alguma correspondência por e-mail com ele e principalmente de ler o livro que ele escreveu. Preciso do nome do livro e onde comprar.
    Se ele escreveu tão bem um texto tão resumido fiquei imaginando como será uma poesia escrita por ele.

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