Um olhar sobre as manifestações sociais de uma sociedade global

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Marcos Antonio Sérgio dos Santos

Marcos Antonio Sérgio dos Santos

Consultor REDEM – Brasil

 

Resumo

Um movimento histórico foi protagonizado por milhares de indivíduos que, aparentemente sem nome, este ano na busca por reivindicar por direitos que lhe eram essenciais e por situações que influenciaram estudantes, artistas e profissionais da mais variadas áreas a sair de sua caverna e se unirem por princípios e ideais necessários para uma geração acostumada a ser alienada pela mídia e por indivíduos que diariamente os induzia a pensar de forma a não filtrar as informações. Uma insatisfação tomou as ruas de várias formas possibilitando um grito de mudança urgente para o cenário político, social e econômico do Brasil.

Palavras-chave: Manifestações Populares, Mudança, Insatisfação, Brasil.

 

A LOOK AT THE SOCIAL EVENTS OF A GLOBAL SOCIETY.

Abstract

A historical movement was led by thousands of individuals who apparently unnamed, this year in search for claim for rights that were essential to it and situations that influenced students, artists and professionals from various areas to leave your cave and join by principles and ideals necessary for a person used to be alienated by the media and individuals the daily induced to think so as not to filter the information generation. Dissatisfaction took to the streets in several ways enabling a cry for urgent change to the political, social and economic environment in Brazil.

Keywords: Popular Manifestations, Change, dissatisfaction, Brazil.

UM OLHAR SOBRE AS MANIFESTAÇÕES SOCIAIS DE UMA SOCIEDADE GLOBAL.

INTRODUÇÃO

O momento em que vivemos no Brasil e no mundo tem como característica a ruptura com o velho, a quebra de paradigmas e principalmente a implantação de uma cultura inovadora, que necessita de uma análise crítica a fim de estabelecer parâmetros para a compreensão dos fatos que rotineiramente tem acontecido por toda parte do planeta.

                Apesar das revoltas e revoluções protagonizadas em nossos dias por motivos mais adversos possíveis, nos deparamos com questionamentos cada vez mais intrigantes e perspicazes.  Qual a ideologia empregada em cada manifestação na atualidade? A alienação, característica da nossa época, interfere na ideologia dessas manifestações? Como a globalização influência o ímpeto revolucionário dos nossos dias? O que resultaria, afinal, de todas essas manifestações?

            Para esses questionamentos e outros que surgiram neste artigo, à intenção é justamente responder por meio de uma abordagem clara e objetiva, a fim de estabelecer os princípios de uma análise das manifestações de forma didática e acima de tudo, refletir sobre o posicionamento social dos indivíduos envolvidos nas revoluções atuais espalhadas por todo o mundo e principalmente no Brasil, relacionando essas premissas com temas transversais como globalização, alienação e sociedade.

 

 O MITO DA CAVERNA E MANIFESTAÇÃO PÚBLICAS

            A relação entre esses temas aparentemente tão distintos nos remete a uma analise da realidade social bem mais distinta e de profunda complexidade. Para tanto, a abordagem que iniciaremos parte da perspectiva filosófica do Mito da Caverna descrito por Platão, de onde buscaremos estabelecer os princípios relacionáveis às manifestações ocorridas na sociedade moderna.

            Dito isso, imaginemos uma caverna separada do mundo exterior por um alto muro. Entre o muro e o chão da caverna há uma fresta por onde passa um pouco de luz exterior, deixando os lugares distantes da fresta em obscuridade quase completa. Neste lugar sombrio, seres humanos estão acorrentados desde seu nascimento, geração após geração, sem poderem mover a cabeça na direção da entrada nem se locomover até lá, unicamente forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do sol. Imóveis e quase totalmente nas trevas.

            Lá dentro da caverna, abaixo do muro, um fogo ilumina sombriamente seu interior e estabelece uma relação com o mundo exterior, pois projeta as sombras daqueles que passam do lado de fora da caverna nas paredes do fundo da caverna.

            Oposto a essa realidade, do lado de fora da caverna, pessoas transitam carregando nos ombros figuras ou imagens de homens e animais cujas sombras são projetadas na parede da caverna enquanto conversam.

            O desconhecimento do mundo fora da caverna faz com que os que vivem no interior da mesma, julgam que as sombras das coisas e das pessoas, os sons e as imagens sejam propriamente a realidade externa. Nesse julgamento, nomeavam as coisas e os seres pelas sombras que viam tendo como seres reais.

            Essa dinâmica persistiu por muitos anos até que um deles, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandonar o interior da caverna, projetando um instrumento rudimentar ele quebra todas as amarras que o detinha, avança em direção da saída da caverna. No primeiro instante, sua visão é ofuscada com a luminosidade do sol, que produzia nele uma mescla de sentimentos (incredulidade e deslumbramento) traduzia uma alienação.

            Essa alienação o impulsiona a retornar a caverna em vista da frustração do novo mundo promovida pela comparação, onde observou que a caverna era melhor. No entanto, retornar envolveria um esforço, que mesmo não disponha no momento. Assim aos poucos sua visão se acomodava a luz e compreendia o novo mundo.

            A comodidade o encanta e feliz consegue perceber a realidade que o cerca e entender a prisão em que se configurava a caverna. Agora, retornar não faz mais nenhum sentido, apesar constantemente dos de lembrar que ainda estavam lá. Por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também (Chaui, 2010).

            Esse mito é enfático ao estabelecer nas projeções das sombras uma leitura da realidade, onde percebe-se claramente a perspectiva unilateral dos prisioneiros da caverna caracterizados por uma acomodação danosa a sua existência. Adiante nessa analise percebemos que essa leitura da realidade perpetua de tal forma que se torna um padrão social desenvolvido historicamente na sociedade. Atualmente, o comodismo padrão existente na sociedade tem sido confrontado com uma série de inquietação com o mundo novo de possibilidade.

            Essa postura democrática que vigora que vigora em nossos dias traz consigo uma ambiguidade notória. Mascarando na passividade da cidadania esse comodismo diante das demandas sociais e políticas de hoje, encontramos o cidadão ignorante e alienado, considerando a incapacidade de mudança como algo fatídico. Em contrapartida, a inquietação convulsionante da juventude, herdeira da liberdade que proporcionou o fim do autoritarismo dos 1970, mostrando toda sua revolta pelas ruas do nosso país.

            Para esclarecermos e aprofundarmos a abordagem se faz necessário à conceituação de alienação e ideologia na busca por compreendermos a leitura da realidade social dos nossos dias. Nessa perspectiva, Ministério em sua análise sobre a alienação nos viés de Karl Marx está intimamente relacionado com a realidade social e as inúmeras concepções adquiridas ao longo da vida. Segundo ele,

“A alienação surge, portanto, a partir da distinção entre as reais relações sociais dos homens e aquelas que eles representam, a partir de idéias e concepções originadas de sua vida cotidiana. Tais representações consistem, a princípio, em falsa consciência caracterizada por uma inversão entre aparência e essência, que termina por ocultar as relações de propriedade existentes, o predomínio político de um grupo sobre outro…” (MINISTÉRIO, 2003, p.206).

            Aliado a essa perspectiva, Karl Marx apresenta um conceito distinto de alienação, que surge como,

“… uma força estranha, situada fora deles, que não sabem de onde ela vem nem para onde vai, que, portanto não podem mais dominar e que, inversamente, percorre agora uma série particular de fases e de estádios de desenvolvimento, tão independente da vontade e da marcha da humanidade, que na verdade é ela que dirige essa vontade e essa marcha da humanidade” (MARX, ENGELS, 1998, p.30).

A alienação, portanto, a partir da distinção do que seja real numa situação de estranhamento da realidade  produz uma dominação sobre os agentes envolvidos no processo. Wood[1] apresenta a ideia de que “a alienação refere-se, fundamentalmente, a uma espécie de atividade na qual a essência do agente é afirmada como algo externo ou estranho a ele, assumindo a forma de uma dominação hostil sobre o agente”. Caracterizando-o como um aspecto exterior e principalmente inconsciente que provoca acomodação diante dos confrontos com as realidades sociais adversas.  Segundo Paulo Serra, este aspecto determina a tendência contemporânea da sociedade.

“Hoje em dia há a tendência para utilizar o termo nos mais variados domínios, dando-lhe o significado extremamente lato de todo o processo mediante o qual o homem deixa de ser autónomo, de ser dono de si mesmo, para se tornar propriedade (escravo) de um outro – algo ou alguém – que por ele decide acerca da sua vida. É precisamente nesse sentido que se fala na “alienação” provocada pela ideologia, pela droga, pelo materialismo, etc”. (Paulo Serra, 2008, p.6).

 

            Essas questões nos incitam a compreender de forma intensa o conceito de alienação. Segundo Chauí,

“A alienação é o fenômeno pelo qual os homens criam ou produzem alguma coisa, dão independência a essa criatura como se ela existisse por si mesma e em si mesma, não se reconhecem na obra que criaram, fazendo a um ser-outro, separado dos homens, superior a eles e com poder sobre eles”. (Chauí, 2010, p. 174).

            Chauí clarifica a responsabilidade individual de cada um no processo histórico democrático de formação do Estado. No qual, o indivíduo alienado não consegue reconhecer-se na sua obra. Esclarecendo este tópico: percebemos no ser alienado a incapacidade de reconhecer na Democracia (obra criada pelo indivíduo enquanto cidadão), o elemento que lhe atribui direitos, estabilidade e segurança. Isolando-se em seus dilemas, esquecem de sua participação enquanto cidadão e vital para o exercício de sua cidadania.

 

A LUZ DO ORIENTE

            Longe de ser um fato isolado, as manifestações e protestos que tomaram as ruas de diversas cidades do país este ano coordenadas pelo Movimento Passe Livre, o MPL. Manifesta consigo ideais que a tornavam autônomo, apartidário, horizontal e independente em seu financiamento. Este movimento inspirou milhares de pessoas a saírem às ruas. Mobilizados pela internet buscavam fortalecer a democracia incentivando a busca por novas formas participação popular. Segundo Vasques, essas manifestações surpreenderam as elites e os conglomerados políticos, ao apresentar semelhanças a eventos internacionais, quando afirma que,

“É diferente dos modelos internacionais, por que não é uma reação a um problema econômico específico, não se quer derrubar o regime o presidente. As semelhanças são na forma, como a convocação por meio das redes sociais, a recusa ao modelo de partidos e o protesto contra a crise de representação”. (Vasques, 2013, p.23).

O evento semelhante a quem se refere Vasques é a Primavera Árabe, um processo deflagrado em 2010, por todo o mundo árabe. Marcado por uma série de manifestações populares que proporcionou a derrubada de governos e uma reconfiguração da esfera geopolítica do Oriente Médio e Norte da África. A perspectiva da Primavera Árabe é elucidada por Candido da Silva ao demonstrar a mescla contextual em que se encontrava inicialmente o Egito (militarizado, liberal e islâmico). Segundo Ele,

“Nesse contexto, vislumbra-se outra subdivisão entre um Egito laico e um Egito Teocrático. O quadro torna-se nebuloso é não exagero traçar uma perspectiva pessimista: a possibilidade de um acirramento entre seculares e muçulmanos, o que poderia levar o país a uma guerra civil”. (Candido da Silva, 2013, p.38).

Está claro que a situação no Oriente Médio está longe de se resolver em virtude da resistência a implantação do regime democrático por parte das elites islâmicas e dos militares, como se apresentou no Egito e na Síria, equacionam as tensões a partir de seus acirrados princípios do Islã.

 

EM QUE RESULTARIA ESSE GRITO DE MUDANÇA?                   

            É evidente que o grito de mudança protagonizado este ano no Brasil não se calou e provavelmente não se calará, em vista de alguns elementos que tem marcado o dia-a-dia de cada cidadão brasileiro, como fatores resultantes das manifestações de junho. No viés deste pensamento, é interessante pontuar que o sentimento de mudança aguçado pelo “som metalizado” do grito de milhares de brasileiros, diante da descarada corrupção protagonizado por indivíduos que explicitamente subtraíram a confiança dos manifestantes, possibilitando uma insatisfação que contagiou os mais diversos segmentos da sociedade, como foi perceptível.

            A mídia, considerada alienante por muitos, foi utilizada como elemento divulgador da máxima “Vem pra rua”, cuja temática despertava a insatisfação recorrente em vista da corrupção categorizada em todas as instâncias da politica brasileira.

            Outro ponto pertinente a essa questão global que teve reflexo em todo o território brasileiro em graus diversos é a insatisfação e o despreparo da população ao reivindicar seus direitos nas manifestações, caracterizada pela violência. Este aspecto trouxe, de certa forma, uma mancha negativa às manifestações. Os ataques, as depredações ao patrimônio público e a violência apresentada por muitos revelou o profundo despreparo para reivindicar mudanças no cenário político e econômico brasileiro. A marca da violência das manifestações atuais de forma alguma desclassifica ou denegre os ideais que influenciaram multidões a sair às ruas, apenas ratifica o despreparo dos manifestantes. Mesmo ciente que as manifestações populares no Brasil é algo histórico, a atual geração se encontra despreparadas para manter um movimento sadia e legitimo numa conjuntura que padece de referenciais ideológicos puros e autênticos.

            Este aspecto nos remete a outro ponto deste viés, a influência alienante da grande mídia que torna impossível a saída da “caverna residencial”, onde recebemos a informação sem o devido filtro. O mesmo deve possibilitar em debate coerente e consciente das questões que permeiam a informação. O problema está em como se configura esse filtro, quais as ideologias que constituem o filtro? A busca por esclarecer a necessidade de filtrar as informação diante constante alienação da mídia nos direcionar a sombras da Mito da Caverna, que induzia os residentes da caverna a uma percepção alienada da realidade.

            Por fim, estas questões de forma positiva ou negativa, nos motiva a refletir sobre o que devemos esperar quanto ao futuro do Brasil, quais as perspectivas de mudanças após toda a gritaria pelas ruas? Acredito que nem tão cedo encontraremos uma resposta plausível para todas essas questões. No entanto, sair da inércia e reivindicar foi apenas o início, ainda há muito a se fazer …

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MARX, Karl; ENGELS. Obras escolhidas. Vol. I. Trad. de Álvaro Pina. Lisboa: Edições Avante, 1982.

PAULO SERRA, J.M. Alienação. Corvilha: Lusosofia Press, 2008. Acessado em http://www.lusosofia.net em 14/07/2013.

CHAUÍ, Marilena. Iniciação á Filosofia. São Paulo: Ática, 2010,p. 9-10.



[1]  AllenW.Wood, “Alienation”, in Edward Craig (Org.),Routledge Encyclopedia of Philosophy, Vol. 1, Londres e Nova Iorque, Routledge, 1998, p. 179.

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