A Profissão Docente Universitária: Identidade em Construção

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Saulo César Paulino e Silva

Consultor REDEM – Brasil

 

Esse é um tema atual que proporciona a criação de espaços para ações reflexivas e transformadoras. Porém é preciso ressaltar que o seu desenvolvimento não é tão simples como pode parecer à primeira vista, pois envolve uma teia de valores cristalizados em uma cultura marcada pelo preconceito e o estereótipo social, de acordo com Silva (2009).

O conceito tradicional de educação, seja nos níveis básicos ou no ensino superior, durante muito tempo, valorizou a Escola como a instituição detentora do saber e o professor como seu legítimo representante. O único capaz de “passar o conhecimento” para um aluno que chegava aos bancos escolares pronto para ser “preenchido”.

Essa relação professor/aluno ilustra as relações sociais em que os indivíduos atuam como se estivessem representando papeis pré-determinados em um dado contexto. Partindo, portanto, dessa perspectiva, poder-se-ia afirmar, por exemplo, que Fulano “nasceu” para ser mecânico, Beltrana para ser manicure, “Cicrano” para ser professor etc.

A partir dessa perspectiva, torna-se necessário questionar como esses papeis estariam relacionados com as identidades sociais.

A idéia de identidade vem sendo discutida por diversos estudiosos na área da teoria social entre outras. Diz-se que existe uma “crise de identidade”, segundo afirma Hall (2003), porque a visão tradicional que concebia a identidade como fixa, compondo um sujeito unificado, está passando por um processo de mudança e transformação que “está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social”

Analisando-se a profissão docente, pode-se inferir que a imagem social de professor, construída ao longo de séculos, está associada ao dominio absoluto do conhecimento que em outras palavras representa “poder” no sentido substantivado. Por outro lado, a imagem de aluno estaria relacionada com a ausência de conteúdo e a necessidade do preenchimento de “espaços vazios”, conforme já mencionado anteriormente.

No entanto, é preciso repensar essa relação de domínio professor/aluno, levando-se em consideração que a situação “confortável” de professor dono absoluto do conhecimento está sendo questionada, como afirma Hall ao dizer que na atualidade o conceito de identidade estável, imutável, está sendo revisto, não havendo mais uma “ancoragem estável”.

Nessa mesma ótica, de acordo com Moita Lopes (2002), os individuos não apresentam apenas uma, mas múltiplas identidades ou identidades fragmentadas. Por exemplo, um sujeito além de exercer a profissão de professor, é também cidadão, homem ou mulher, é ou não religioso etc.. . Na verdade, os indivíduos são um conjunto de possibilidade de “si mesmos”.

Partindo da concepção de “identidade abrangente”, Hall (2003) justifica que os estudos a esse respeito ainda são recentes e revelam grande complexidade. Argumenta esse autor que mudanças estruturais iniciaram uma transformação nas sociedades modernas a partir do final do século XX e início do século XXI. Como resultado desse fenômeno social de mudança, começou ocorrer a fragmentação dos conceitos culturais de gênero, sexualidade, etnia raça e nacionalidade. Consequentemente, isso está proporcionando uma transformação em nossas identidades sociais que “no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais” .

Essas transformações estão mudando também as identidades individuais e questionando o conceito que temos de nós mesmos como sujeitos integrados.

Para Mcllvenny (1996), nas sociedades ocidentais contemporáneas cultura e identidade não são mais vistas como conceitos vazios, pois hoje não se pode falar a respeito de identidade sem mencionar a cultura. Segundo ese pesquisador, em nosso mundo pós-moderno tornou-se impossível conceber a cultura como algo finito e auto-suficiente de conteúdo, costumes e tradições.

Esse movimento de transformação social e também cultural se reflete na atuação dos profissionais da educação superior, influenciando suas ações cotidianas dentro e fora da sala de aula.

De acordo com Jarros (2010) no ano de 1998 ocorreu a Conferência Mundial sobre a Educação Superior, promovida pela UNESCO, que discutiu mudanças importantes ocorridas no cenário universitário. Um dos pontos apresentados foi o aumento de alunos que ingressaram na academia, desmistificando-se esse espaço de aprendizagem como exclusivo de pequenos e privilegiados grupos sociais.

Mais recentemente, essas oportunidades de ingresso na educação superior passaram também a nortear a construção de uma nova identidade do aluno universitário brasileiro, pois a partir do ano de 2003, com a ascensão de um governo de cunho popular, iniciativas importantes para uma mudança educacional, e consequentemente social, passaram a nortear as políticas públicas orientadas pelo Ministério da Educação, a partir da máxima de “Escola para Todos”, com o objetivo de minorar esse quadro.

Foram criados, por exemplo, programas importantes como: PROUNI – Programa Universidade para Todos – que tem como objetivo principal conceder bolsas de estudo integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior para alunos oriundos das classes menos favorecidas. Também foram delegadas novas responsabilidades para as Instituições de Ensino Superior, que passaram a ser avaliadas e supervisionadas pelo Ministério da Educação.

Esse cenário criou um novo paradigma a partir de diferentes aspectos,

podendo-se destacar três principais:

1º. As instituições de ensino superior, particularmente as privadas, começaram a investir na qualidade de ensino, valorizando a pesquisa, em diferentes níveis, contribuindo para a criação de uma cultura científica.

2º. Nessa nova perspectiva, o reconhecimento do fazer acadêmico e docente são concebidos como ações transformadoras que garantem a parceria salutar entre Governo e Sociedade Civil, refletindo-se em benefício do crescimento do país como um todo.

3º. O número de brasileiros de diferentes extratos sociais, que históricamente estiveram excluídos do sistema educacional, está conseguindo ingressar em um curso superior.

Esse contexto recente proporciona inferências reflexivas que poderão se traduzir em questões como: 1. As nossas universidades estão preparadas para receber alunos com diferentes perfis sócio-econômicos? 2. Como ocorre o processo de construção de identidades do professor universitário em um cenário de transformação? 3. O aluno brasileiro que, historicamente, esteve alijado do ensino superior, está preparado para esse novo momento?

As respostas para essas questões são subjetivas, porém poderão contribuir para se compreender o atual quadro na educação superior brasileira.

Levando-se em consideração que as atuais políticas públicas para a educação superior, introduzidas pelo MEC, procuram satisfazer as exigencias de uma sociedade em constante transformação, é possível desenhar um esboço inicial da nova realidade das Instituições de Ensino Superior no Brasil do século XXI.

Periodicamente, essas instituições são avaliadas por uma Comissão definida pelo Ministério da Educação. Para isso foram estabelecidas notas a partir de determinados critérios com o objetivo de verificar se as instituições brasileiras de ensino cumprem as exigências mínimas como: a oferta de cursos com qualidade, capacitação do corpo docente para o atendimento de uma nova demanda social e econômica, a vivência de um aprendizado inovador.

O órgão responsável por essa avaliação é o Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior) e os critérios por ele analisados são: a missão e o plano de desenvolvimento da instituição, a política de ensino, a responsabilidade institucional, a comunicação com a sociedade, as políticas de pessoal, a organização e gestão, a infra-estrutura física, o planejamento e avaliação, a política de atendimento aos estudantes e a sustentabilidade financeira.

Desses critérios, pode-se destacar, resumidamente, aqueles relacionados com o corpo docente. Nesse quesito, considera-se a titulação e a composição do Núcleo Docente Estruturante, composto por um grupo de professores da instituição responsável pela operacionalização das diretrizes curriculares do curso.

Nesse contexto, as atribuições para o professor ganham novos  contornos, indo muito além da reprodução de conhecimento em sala de aula; questionando-se, portanto, o velho modelo estereotipado de professor “dono do saber” a partir de uma relação de poder. O professor passa a desempenhar novas tarefas, das quais são exigidas diferentes habilidades, construindo-se, portanto, uma nova imagem social, uma nova identidade. Por exemplo, o desenvolvimento de uma cultura acadêmica abre a possibilidade de orientação de projetos de iniciação científica, ou a criação de grupos de estudos entre outras.

Também não se poderia deixar de mencionar, sem se aprofundar nesse momento, a importância das novas tecnologias da informação (TIC) como ferramentas cada vez mais presentes na vida escolar brasileira como, por exemplo, o uso de espaços virtuais para atividades de ensino aprendizagem.

O aluno também passa a ser sujeito de sua história, a partir do momento em que esse processo de ensino-aprendizagem exigirá dele novas responsabilidades e habilidades que também vão muito além de uma atitude passiva, limitada as quatro paredes de uma sala de aula.

Tomando-se como base a análise discursiva, ou seja, as pistas lingüísticas presentes na fala desses alunos, nota-se que o seu repertorio vocabular, em linhas gerais, reflete a aquisição de novos conhecimentos, que refletem esse momento da história educacional brasileira.

A análise dessas pistas não se deu de forma rígida e sistemática, pois foi fruto de observações vividas nos debates e discussões realizados em sala, ou na leitura dos textos de trabalhos desses alunos. As observações vivenciais foram realizadas empregando-se os diários de leitura, ou seja: as anotações feitas após as aulas da disciplina de Educação Inclusiva, ou ainda durante a correção de trabalhos de alunos do curso de Pedagogia, da Faculdade Sumaré.

Mais do que apenas verificar se o conteúdo programático foi assimilado, houve a preocupação de se identificar os ganhos de um processo de amadurecimento tanto intelectual quanto de participação social desses alunos.

A proposta de trabalhos investigativos e expositivos contribuiu para que passassem a empregar e interpretar termos mais científicos como: projeto, metodologia, pesquisa, levantamento bibliográfico entre outros, relacionándoos a sua preparação profissional.

Portanto é possível afirmar que a percepção de identidades do professor na universidade do século XXI está associada também a construção de uma nova identidade do aluno e ambas estão relacionadas com as transformações sociais e consequentemente culturais que estão ocorrendo em nossa sociedade.

É importante ressaltar que não há um modelo a ser seguido para a atividade de professor universitário, tomando-se como parâmetro o conceito de papel social, apresentado no início deste trabalho. A identidade docente é um processo que está em permanente dinamização; e desse processo também faz parte a concepção de aluno-sujeito que participa na construção do conhecimento.

BIBLIOGRAFIA
 
BRASIL. Ministério da Educação
https://www.mec.gov.br
Acesso em 14 de março de 2013.
 
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP e A, 2003.
 
JARROS, Maria de Lourdes Dário. A inclusão/exclusão no ensino Superior.
https://www2.unopar.br/sites/propae/artigos/a-inclusao-exclusao-noensino-superior.html
Acesso em 14 de março de 2013.
 
MCLLEVENNY, Paul. Popular Public Discourse at Speakers’ Corner: Negotiating Cultural Identities in Interaction. In: Discourse & Society, 1996.
 
MOITA-LOPES, L.P Identidades fragmentadas. Campinas: Mercado de Letras, 2002.
SILVA, Saulo Cesar da. Percebendo o ser. São Paulo: LCTE, 2009.
 
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