A matemática é hoje para a maior parte dos alunos uma linguagem incompreensível e muito pouco motivadora. Os registos biográficos dos alunos atestam os maus resultados obtidos à disciplina de matemática pela grande maioria dos alunos portugueses ao nível do 3ºciclo de Escolaridade. Consideramos importante demarcar o 3ºCiclo do Ensino Secundário uma vez que os alunos que progridem nas áreas Científico-Naturais o fazem por opção. Esta escolha resulta, obviamente, não só do gosto pelas ciências exactas como da consequente compreensão das mesmas.
Relativamente ao domínio da Língua Portuguesa os professores de todos os níveis de ensino parecem ser unânimes no que respeita ao facto dos jovens revelarem grandes dificuldades ao nível da compreensão e da expressão escritas. Perderam-se os hábitos da leitura e da escrita, a televisão e os jogos informáticos exigem um esforço muito menor aos jovens sendo, por isso, muito mais solicitados. Ler é um hábito solitário que exige calma, serenidade e tempo. É comum ouvirmos os professores afirmarem que se sentem incapazes para solucionarem esta falta de pré-requisitos dos alunos. A principal razão apresentada é a obrigatoriedade de cumprir o programa do respectivo ano escolar.
Os jovens vão reprovando sucessivas vezes até que acabam por abandonar a escola. Muitos destes jovens entram no mundo das drogas e da marginalidade porque a imagem mental que têm de si próprios é pouco positiva. Falharam nos estudos e a escola também não os ensinou a desempenhar nenhum ofício. Facto este que os impossibilita de encontrarem um emprego que lhes permita uma digna integração na sociedade.
Ao longo dos anos que temos vindo a exercer a nossa actividade docente muitas foram as vezes que nos questionámos relativamente à forma de minorar estas dificuldades.
Ao partilharmos com um amigo estas nossas preocupações este sugeriu-nos a leitura das obras de Stella Baruk Comptes pour petits et Grands volumes 1e 2 que despertaram o nosso interesse de imediato. A aprendizagem da matemática no 1ºciclo do Ensino em simultâneo com a escrita pareceu-nos um excelente método para ser estudado em Portugal e posteriormente divulgado aos professores deste nível de ensino. A fim de lhes demonstrar que é essencialmente através do desenvolvimento do raciocínio que poderemos melhorar o desempenho dos nossos alunos. É um método inovador pois se a criança não compreende um determinado exercício de matemática de nada adianta sugerir-lhe outro igual apenas com números diferentes. A dificuldade reside no raciocínio que é necessário fazer e não no exercício proposto. A autora defende que a concretização dos termos abstractos deverá ser uma prioridade. O uso das mãos e dos objectos é sempre facilitador da compreensão dos exercícios.
Diz-nos ainda a autora que o facto da aprendizagem da linguagem matemática não ser natural dificulta a compreensão da mesma. Apresentamos como exemplo a designação atribuída aos números: enquanto que em francês eu digo "quatre vingts" e explico à criança que 80 são 4 x 20 em português esta lógica não é perceptível apenas pela designação oitenta.
Solucionar estas dificuldades dos nossos jovens parece não ser fácil. Há um diagnóstico do problema mas parece não haver soluções viáveis num momento da aprendizagem em que as noções básicas já deveriam ter sido adquiridas. Stella Baruk propõe-nos medidas que não se destinam a remediar os problemas apresentados mas a evitá-los nas gerações futuras. Este estudo assenta no ensino dos números em simultâneo com a escrita. Podemos resumir a sua teoria da seguinte forma: a criança conhece já a grande maioria dos vocábulos através da língua falada antes de conhecer os grafemas que lhe são correspondentes. Na escola começa a ter a necessidade de codificar o que só percepcionava através dos sons. Entendemos aqui a escrita como um código. Por outro lado, é necessário que no acto de ler a criança seja capaz de descodificar a língua escrita. O mesmo procedimento é necessário à matemática. Em termos absolutos o que a autora propõe não é mais do que o desenvolvimento cognitivo das crianças. A leitura, uma vez dominada, como todas as artes cognitivas é simples, imediata e não exige um esforço aparente. Segundo José Morais na sua obra A arte de ler a leitura é: " uma arte esquecida, interiorizada, reduzida a operações automatizadas em redes de neurónios inacessíveis." O que é o mesmo que dizer que se tivéssemos de pensar não conseguíamos ler, do mesmo modo que não conseguiríamos adormecer se quiséssemos saber como adormecemos!
Entre as razões pelas quais o autor considera que tentamos ultrapassar esta opacidade é por acreditarmos que a compreensão dos processos de leitura e da aquisição destes processos para ajudar a elaborar métodos de instrução e técnicas de reeducação apropriadas.
Propusemo-nos testar a teoria da autora no "terreno" sensibilizando educadoras, professoras e as crianças e os jovens com quem estas trabalhavam. Os objectivos do presente estudo prenderam-se, essencialmente, com as seguintes questões:
- identificar as principais dificuldades dos alunos a frequentar o 3ºciclo do Ensino
Básico ao nível da matemática e da língua portuguesa.
- sensibilizar os professores do 1º ciclo através de acções de formação para os estudos
de Stella Baruk.
- Aplicar as propostas da autora a 3 turmas de alunos durante os primeiros quatro anos
de escolaridade.
- Aferir ao nível do segundo ciclo se o gosto e o domínio pela Língua Portuguesa e pela
matemática é igual/ menor/ou superior às 3 turmas em que os alunos foram sujeitos
aos programas vigentes actualmente.
- Facilitar as aprendizagens dos alunos.
- Diminuir as dificuldades ao nível destas disciplinas às gerações mais novas.
-Fomentar o gosto pela língua falada e escrita e desmistificar a linguagem a matemática.
Levantámos um conjunto de hipóteses de partida que passamos a apresentar:
a) Alunos expostos a este método de aprendizagem irão alcançar melhores resultados a matemática e a Língua Portuguesa do que os alunos que não contactarem com este método de aprendizagem.
b) Alunos expostos a este método de aprendizagem irão desenvolver um maior gosto pelas disciplinas em questão do que os alunos que não contactarem com este método de aprendizagem.
C) Alunos expostos a este método de aprendizagem irão desenvolver uma maior capacidade de raciocínio do que os alunos que foram sujeitos aos métodos vigentes actualmente.
Testámos as hipóteses levantadas anteriormente através dos seguintes métodos e procedimentos:
Num 1ºmomento:
1ºgrupo: submetido aos estudos de Stella Baruk:
. Iniciar o ensino dos números e da escrita em simultâneo (ambos são uma
linguagem simbólica representativa da apropriação que o ser humano faz da
realidade).
. Recorrer ao uso de objectos para explicar determinados conceitos abstractos.
(aos dedos, a imagens, a objectos do quotidiano…)
. Apelar ao facto de cada fonema existente em cada palavra corresponder a um
grafema aquando da aprendizagem da escrita. Ao contrário do que se faz
actualmente no primeiro ciclo -Método global.
. Observar as reacções dos alunos às tarefas propostas.
. Observar a forma como os alunos resolvem as problemáticas que lhes são
apresentadas na sala de aula.
. Verificar a compreensão dos conteúdos leccionados.
. Promover o gosto pela Matemática e pela Língua Portuguesa uma vez que se
pretende tornar estas linguagens o mais naturais possível.
2ºGrupo de alunos sujeitos aos métodos de aprendizagem aplicados na actualidade:
. O processo de ensino/ aprendizagem destes alunos decorrerá em conformidade
com as directrizes do Ministério da Educação.
. Observar a forma como os alunos reagem às tarefas propostas.
. Observar as dificuldades reveladas pelos alunos.
. Verificar como solucionam os professores essas dificuldades - através das
didácticas, solicitando ao aluno que realize mais exercícios idênticos ao que não
havia conseguido resolver anteriormente ou promovendo o raciocínio do aluno?
. verificar o nível de sucesso/insucesso dos alunos.
. verificar o grau de motivação dos alunos.
2º momento
Após os quatro primeiros anos de escolaridade fazer um estudo comparativo dos dois
grupos de alunos a fim de verificar:
As reprovações e as desistências ocorridas, as classificações obtidas pelos alunos, o
interesse destes pela matemática e pela Língua Portuguesa.
Apresentamos, seguidamente, o design- métodos e procedimentos e o uso das amostras:
-Pergunta de partida
O insucesso escolar na disciplina de matemática e de Língua Portuguesa é uma realidade preocupante. Será possível resolver/minorar esta situação?
Propusemo-nos comparar os resultados obtidos em 6 turmas do 2º ciclo pertencentes à mesma escola ao nível das disciplinas de Língua Portuguesa e de Matemática. Três dessas turmas já teriam sido submetidas aos métodos propostos por Stella Baruk as restantes três fizeram as suas aprendizagens através dos métodos tradicionais.
Amostra:
120 alunos - rapazes e raparigas pertencentes a 6 turmas do 2ºciclo.
Caracterização da amostra: A escolha das turmas terá em conta os seguintes factores:
- 3 turmas constituídas por rapazes e raparigas sujeitas ao
ensino tradicional da língua portuguesa (método global-
que assenta em pressupostos completamente opostos aos
defendidos pelos autores já mencionados) e da matemática.
- 3 turmas constituídas por rapazes e raparigas sujeitas
aos métodos defendidos por Stella Baruk.
A escolha das seis turmas recaiu em turmas constituídas por crianças do sexo masculino e feminino pertencentes a famílias com uma situação sócio-económica similar. Estas crianças têm idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos. (Uma vez que o estudo implica a passagem do tempo para se poder verificar a eficácia do mesmo)
Instrumentação
- Coleta de dados:
. entrevista
. observação através de grelha de observação
-Análise de dados:
. estudo de caso
. teoria fundamentada
Método de observação: aulas das duas disciplinas de modo a observar as competências
linguísticas dos alunos.
Entrevista
. Aplicada em momentos distintos da aprendizagem a fim de aferir quais as tendências em termos dos interesses pelas disciplinas nos dois grupos de alunos.
. Permite, igualmente, aferir o seu percurso escolar nomeadamente no que respeita aos professores que mais os motivaram, aos professores com um elevado grau de absentismo, e a relação destas variáveis com o sucesso /insucesso obtido às disciplinas de Língua portuguesa e de Matemática.
. Permite constatar as características da língua falada pelos alunos pertencentes aos dois grupos de trabalho.
. A capacidade de estruturar um texto (introduzir uma determinada temática, desenvolvê-la e conclui-la)
Conclusão:limitação e delimitação do estudo
As principais fraquezas deste estudo prendem-se com a dificuldade inerente à mudança de mentalidade. Os pais de alguns alunos podem opor-se à integração dos seus filhos nas turmas onde as propostas de Stella Baruk irão ser aplicadas.
A incompreensão, mesmo que parcial, das propostas elaboradas por Stella Baruk por parte do professor actuante constituirá uma forte limitação ao sucesso das propostas. Razão pela qual consideramos essencial que o formador destes professores visite estas salas de aula sem avisar previamente. Só desta forma poderá ter uma noção precisa da aplicação das propostas supracitadas nestas três turmas de alunos portugueses.
O número elevado de alunos por turma dificultará o trabalho do professor, que se pretende que seja o mais personalizado possível. Caso contrário o professor não se conseguirá aperceber dos erros de raciocínio dos seus alunos.
A significância deste estudo reside no facto de apesar de assentar em pressupostos teóricos já existentes nos termos proposto introduzir modificações na prática educativa dos professores do primeiro ciclo do ensino básico em Portugal. Inicialmente, a mudança atingirá apenas três professores mas se conseguirmos provar a eficácia das propostas pretendemos alargar o estudo a um grupo alargado de docentes. Consideramos imprescindível a sensibilização e a adequada formação dos mesmos.
Ao pensar na significância do presente estudo consideramos que os resultados obtidos constituem um contributo que nos permite verificar a eficácia das propostas da autora.
Através dos resultados obtidos o educador envolvido directamente no processo tomará consciência da sua contribuição para uma melhoria do processo ensino/aprendizagem. Os resultados deverão, assim, influenciar os métodos e as intervenções pedagógicas. Os resultados poderão contribuir para a solução de problemas educacionais, a saber: a apropriação do código linguístico português assim como da linguagem matemática. Consideramos, ainda, que o que irá ser mudado com esta proposta será essencialmente a postura do professor relativamente aos conteúdos a leccionar. Referimo-nos concretamente ao maior cuidado do professor em ajudar o aluno a pensar. Caso se verifique a validade do presente estudo este dará lugar a um conjunto de acções de sensibilização e de formação para professores do primeiro ciclo do ensino básico. A aplicabilidade das propostas da autora nas escolas portuguesas seria a inovação que gostaríamos de ver implementada. Esta está, obviamente, dependente dos resultados deste estudo de caso mas também da motivação dos professores. Não acreditamos que o presente estudo de caso influencie as decisões relativas a políticas educacionais mesmo que os resultados obtidos atestem a sua total eficácia, apontamos a lentidão que caracteriza toda e qualquer mudança de mentalidade assim como o aspecto monetário como alguns dos entraves à generalização desta prática. Não quisemos, no entanto, deixar de dar a conhecer o estudo que consideramos não só enriquecedor para os docentes como eficaz para as crianças e para os jovens independentemente da sua nacionalidade.
Elsa Martins