BOLETÍN  REDEM
Boletín Quincenal desarrollado por REDEM . Powered by PUBLIGRAFICO Design     -   2009
Nombre:
E-mail:
Comentarios:
Comentarios
SAÚDE: CIÊNCIA E PRÁXIS

                                            Não existe neutralidade científica, em termos absolutos, logo a visão de mundo, a mentalidade e ideologia dominante, interferem diretamente na ciência e na práxis dos seus profissionais.

Ao analisarmos o relacionamento dos profissionais da saúde com o cliente, inicialmente temos que identificar esse cliente.
Numa sociedade estratificada, como a nossa, certamente detectamos relacionamentos, qualidade de prestação de serviços diferenciados, mesmo na área de saúde, para clientes de classes sociais distintas.

Estima-se que no Brasil uma percentagem muito pequena de clientes trata da saúde em consultórios e clínicas particulares ou através de cooperativas médicas, seguros-saúde e similares, nos quais são oferecidos atendimentos de melhor qualidade, tanto no que diz respeito ao instrumental técnico-científico, quanto à relação interpessoal que permeia esse atendimento.

Aproximadamente 95% da população, a grande maioria, portanto, é atendida pela rede pública: Secretarias de Saúde, Universidades, Convênios com entidades filantrópicas ou pelo Sistema Único de Saúde- SUS, nos quais, o profissional de saúde se transforma, na maioria das vezes num distribuidor de remédios, de guias de internação e atestados, isso em decorrência das estruturas das Instituições e pela própria formação acadêmica (a universidade não prepara profissionais para o atendimento às camadas populares) e o paciente enfrenta intermináveis filas e, ainda, obtém um tratamento sem a qualidade devida.

Assim, pode-se se afirmar que, os serviços públicos, em sua grande maioria, caracterizam-se por precariedade e repressão, reproduzindo a desigualdade instaurada no âmbito da organização social vigente. 

Em alguns encontros de profissionais da saúde essa questão é abordada e as reflexões apontam sempre para indicadores bem conhecidos daqueles que se preocupam com a questão, ou seja, nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento como o nosso, o analfabetismo, a pobreza, baixo nível cultural, morte prematura, saúde geral precária, configuram um quadro comum nessas nações.

É do conhecimento geral que, as nações subdesenvolvidas sustentam as multinacionais e os países centrais, o que as impedem de chegar a um desenvolvimento real. Ainda apresentam uma aparente modernização a qual, por sua vez, traz desequilíbrios sociais de grandes proporções. Por sua vez, esses desequilíbrios são sentidos pelos indivíduos, refletem-se nas pessoas.

Alguns profissionais mais politizados denunciam como a saúde é transformada em mercadoria pelo capitalismo do subdesenvolvimento.

Teoricamente muitos planos oficiais reconhecem a origem sócio-cultural das doenças, mas nada é feito na prática para empreender mudanças no quadro atual. Fica claro que a medicina ainda não se deixou penetrar por essa realidade, nem na sua prática de investigação, nem na sua prática terapêutica. Na verdade, não há interesse real por parte dos órgãos públicos responsáveis, no sentido de eleger políticas de ação que resultem na superação das distorções existentes, vejamos alguns dos motivos:

-  o capitalismo selvagem do terceiro mundo tem necessidade da doença para produzir lucros;

-        tem necessidade da medicina para fazer política e continuar fazendo lucros e manter a elite no poder, através de uma assistência paternalista;

-        domestica as populações;

-        vende remédios;

-        inaugura postos de saúde, que em sua maioria não funciona ou funciona precariamente;

-        superfaturam ambulâncias e outros, a exemplo dos últimos escândalos.

Assim, o atendimento de saúde, às camadas populares, representa e reproduz um modelo social alheio às necessidades do povo, cronificando suas doenças, principalmente as mentais e baseando sua prática numa repressão autoritária e estigmatizadora.

Ainda, na grande maioria das vezes, a relação terapeuta-paciente/cliente, contextualiza uma relação de poder. O terapeuta é sempre o detentor do saber e o paciente/cliente simplesmente submete-se a esse poder e essa relação de poder é sempre mais acentuada no atendimento às camadas populares, na qual é acrescido ao poder do saber o poder do econômico, hierarquizando e distanciando, ainda mais, os pares dessa relação, tornando-a fria, distante, sem o calor humano que o doente necessita.

Um assassinato de um psiquiatra do INAMPS por um paciente trabalhador/desempregado, há algumas décadas, levantou opiniões diferentes: versões oficiais explicavam o fato como simples loucura do paciente e as medidas propostas redundavam em colocar policiais dentro dos ambulatórios, enquanto outros profissionais viram o fato como resultante das condições de vida nas classes trabalhadoras e do real atendimento prestado pelo sistema previdenciário. Foram feitas denúncias dessas condições e da filosofia paliativa e elitista que orienta o atendimento de saúde no Brasil.

É necessário por parte dos profissionais da área da saúde o comprometimento com a construção de uma sociedade digna, sem marginalizados, de homens iguais; com uma condução autônoma em relação aos modelos estrangeiros, buscando assim, um proceder terapêutico e pedagógico, no sentido de transformar todo agir empreendido, em ação social para a igualdade.   

Isso posto, convém enfatizar que, quanto mais se lutar contra a miséria, mais fácil será a reconstrução de um atendimento mais humano. A humanização do conhecimento e dos serviços da saúde é apenas uma das variáveis do processo de transformação necessária. É indispensável e urgente obter qualidade nessa assistência. É premente resgatar as necessidades perdidas do homem, aquelas jamais colocadas. O homem precisa diferenciar as suas necessidades daquelas induzidas pela sociedade de consumo, ou seja, tomar consciência de suas necessidade reais, sobrepujando a alienação.


*Psicóloga e Doutora em Ciências Pedagógica, com especialização em Sociologia 

31 de Octubre del 2009
   Por: Dilercy Aragão Adler*
            Miembro Consultor REDEM en Brasil