BOLETÍN  REDEM
Boletín Quincenal desarrollado por REDEM . Powered by PUBLIGRAFICO Design     -   2008
Uma estratégia para promover a relação criança/literatura
  Defendemos que a literatura tradicional constitui um espólio riquíssimo que não pode deixar de ser explorado pelos educadores/professores nos seus espaços de aula. No entanto, consideramos que os textos recolhidos devem ser sujeitos a um processo de reescrita antes de serem trabalhados com as crianças. Sabemos que os textos recolhidos são, não raras vezes bastante violentos e a linguagem utilizada também nem sempre é a mais conveniente. É nesta medida que afirmamos que compreender a génese da Psicolinguística, privilegiando as relações existentes entre a Linguística e a Psicologia é um conhecimento essencial a qualquer educador e professor. Este é um requisito fundamental para o docente poder adquirir um suporte teórico capaz de o levar a compreender as situações problemáticas ao nível da aquisição da escrita e da leitura das crianças com quem trabalha. Fazer um correcto diagnóstico das necessidades dessas crianças é uma tarefa indispensável para quem se propõe realizar um trabalho sério e rigoroso.
Aquele que nos parece ser o grande contributo da psicolinguística é o facto desta ter em linha de conta o indivíduo na sua totalidade, ou seja, a sua componente física, psicológica e social. Ou seja, enquanto a linguística estuda a forma como os falantes se expressam e ajudam a compreender a aquisição da linguagem oral e escrita a psicolinguística estuda os processos mentais envolvidos no acto de fala.

Para o sucesso de todo este processo, o educador/ professor tem de ser um bom leitor e possuir o hábito da escrita. Nós só ensinamos aquilo que sabemos e aquilo que somos. Não acreditamos ser possível contribuir para a formação de futuros leitores se nós próprios não possuirmos o prazer de ler.

Ao longo do processo que ele próprio conduz é, também, muito importante que o professor explore a oralidade da criança. A criança quando entra para a escola ou até mesmo para o jardim-de-infância já produz enunciados orais. É necessário que o educador não ignore esse conhecimento, mesmo se a criança possuir um vocabulário que se afaste do português padrão. É normal que as crianças utilizem um vocabulário característico da sua região e o papel do professor, nestes casos, não deve ser o de se indignar ou o de repreender. Deverá sim, explicar à criança que na oralidade poderá utilizar uma dada palavra mas que esta deverá ser substituída por uma outra nos enunciados escritos. A adequação do vocabulário ao registo escrito e ao registo oral deverão ser feitos o mais cedo possível na medida em que é possível encontrarmos imprecisões destas ao longo de todo o ensino secundário. A sensibilização aos diferentes níveis de língua e à sua correcta aplicação é, igualmente, fulcral que seja feita nos primeiros anos de escolarização.   
Segundo Cagliari "Aprender a falar é, sem dúvida, a tarefa mais complexa que o homem realiza na sua vida. É a manifestação mais elevada da racionalidade humana. As crianças de todos os lugares do mundo, de todas as classes sociais realizam isso de um e meio a três anos de idade. Isso é uma prova de inteligência. Toda a criança aprende uma língua e não fala um amontoado de sons"

Ao colocar a criança a contar pequenas histórias, o educador/professor está a contribuir para o enriquecimento do seu vocabulário e a permitir-lhe que esta alargue o seu domínio da sintaxe da língua portuguesa. Após um bom domínio da língua falada a criança irá sendo conduzida, lentamente, para passar da língua oral para a escrita. Sabemos que esta passagem não é automática, exige várias operações cognitivas e linguísticas uma vez que a escrita é uma representação simbólica da fala.

A escrita altera a forma da criança reorganizar o mundo. Desde logo porque lhe amplia a visão do mundo que possuía anteriormente. A aprendizagem da escrita provoca profundas modificações na reconfiguração interior da criança relativamente à realidade exterior. É, por isso, compreensível a preocupação do professor em direccionar a criança sempre no sentido desta melhorar a sua produção escrita.

Ao fazer um reaproveitamento da oralidade que a criança possui já ao entrar na escola e ao fazer correspondências entre a oralidade e a escrita o adulto está a contribuir para que a criança adquira uma competência discursiva maior. 

Não podemos deixar de salientar que a todo e qualquer processo de reescrita está subjacente uma leitura pessoal de quem lê o texto com a intenção de o reescrever. Há, por assim dizer, uma interpretação do texto que é forçosamente subjectiva uma vez que é pessoal. Razão pela qual podem surgir alterações (que podem ser mais ou menos significativas) entre o texto recolhido (texto de partida) e o texto reescrito (texto de chegada).

Ainda no que ao desenvolvimento da intriga diz respeito, o professor/ educador poderá alterá-lo sempre que o considere conveniente. A sua principal preocupação deverá ser a adequação dos temas tratados e a abordagem que é feita aos mesmos ao nível etário das crianças com quem trabalha.   
  
Apresentamos, seguidamente, um texto recolhido do património oral. Num primeiro momento a narrativas surge-nos ipsis verbis como foi reproduzida e posteriormente surge-nos após ter sido sujeita a um processo de reescrita.

Mantivemo-nos fiéis às temáticas presentes no texto, o nosso trabalho recaiu apenas no discurso.


Conto: "O medo"

Versão recolhida
Era uma vez um homem que era enterrador no cemitério.
Todos os dias lá passavam rebanhos e todos os dias ele deitava a mão a um borrego ou a uma ovelha coxa que ficava para trás quando o moral se afastava.
O animal roubado ficava escondido no cemitério e era a mulher do enterrador, embrulhada num lençol branco que ia buscar o animal morto, quando já era de noite.
Começaram a dizer por aquelas bandas que havia um medo no cemitério.
Dois homens da aldeia muito afoitos disseram um para o outro:
- Dizem que há um medo no cemitério, se eu não fosse coxo é que lá ia.
Disse-lhe outro:
- Eu levo-te às cavalitas e vamos os dois.
De noite vão os dois ao cemitério. Nessa noite a mulher do enterrador tinha ido ao cemitério buscar um borrego e encara com os homens. O coxo ia às costas do outro.
A mulher julgando que era o marido com o borrego às costas, disse:
-Atão já lá levas o coxo?
O homem ouvindo isto aventou com o coxo para o chão e partiu a fugir.
O coxo aflito gritava:
- Ai de mim e doutro!...


  Texto recolhido pela educadora Ana Paula
   Local de recolha: Associação Protectora do Abrigo dos Velhos Trabalhadores em
   Montemor-o-Novo.   Informante: Lauriana Risso
Versão reescrita:


O medo

Era uma vez… um homem que era coveiro. O cemitério estava situado fora da aldeia, no campo. Os pastores da aldeia passavam duas vezes por dia junto ao cemitério. De manhã cedo levavam os rebanhos da aldeia para pastarem nas ervas verdes e ao anoitecer regressavam a casa. O coveiro observava todos os dias as ovelhas e os borregos que estavam cada vez mais gordinhos.
Um dia disse para a mulher: - Hoje ao ver os rebanhos da aldeia tive uma ideia.
-Uma ideia? Perguntou-lhe logo a mulher que era muito curiosa.
- Sim… Respondeu-lhe o homem já impaciente por ela não o deixar falar.
- Ouve, lá! Quando os rebanhos regressam à aldeia já não há sol e tu sabes que entre tantos animais há sempre uns que ficam para trás…ou porque são mais pequenos ou porque estão coxos…
- Continua, continua que acho que já estou a perceber o que queres dizer. Dizia-lhe a mulher entusiasmada.
- Bem, a minha ideia é muito simples: todos os dias, eu apanho um borrego ou uma ovelha, escondo-a no cemitério e tu à noite embrulhas-te num lençol e vais lá buscá-lo. Mesmo que alguém te veja junto ao cemitério vai julgar que és um fantasma. Vai ter tanto medo que nem se aproximará de ti nem do cemitério.
Após esta conversa os animais dos rebanhos da aldeia lá iam desaparecendo e os pastores estavam convencidos de que eram as almas que lhes levavam os animais. Na aldeia não se falava em outra coisa, as pessoas andavam assustadas.
Um dia dois homens da aldeia, conhecidos pela sua coragem, decidiram ir ao cemitério para descobrirem o que se passava. Havia, no entanto, um problema do qual nos dá conta um dos homens:
- Se eu não fosse coxo ia lá esta noite.
Ao que o outro lhe responde:
- Eu levo-te às cavalitas e vamos lá os dois, esta noite, não passa desta noite!         
Assim que se fez de noite fizeram-se ao caminho. Ao chegarem ao cemitério viram o vulto da mulher do coveiro mas, como não havia luz, ninguém se reconheceu.
A mulher pensou que era o marido e disse-lhe:
- Então já levas o coxo?
O homem que levava o amigo coxo às costas, apavorado começou a correr para a aldeia. Abandonou o amigo para ir mais leve e nunca mais ninguém o viu.
O amigo lá ia andando o mais rápido que podia enquanto gritava: " Ai de mim e do outro, ai de mim e do outro!
O fantasma do cemitério era, afinal a mulher do coveiro que lá ia roubando os animais aos pastores embrulhada num lençol…
            

Objectivos:


Abordar a temática presente no texto não é uma tarefa fácil para os educadores e para os professores. Sabemos que o medo é aprendido, as crianças têm medo de determinada coisa porque sentiram que os pais também tinham. Outros são herdados da cultura da sociedade onde nasceram e vivem. Os receios relacionados com as almas dos mortos são comuns, sobretudo nos meios rurais. As pessoas que permaneceram nestes locais são, por norma, idosas e possuem um baixo nível de instrução razão pela qual tendem a explicar os fenómenos que não compreendem através do sobrenatural. A crença nas almas penadas baseia-se, essencialmente, no pressuposto de que as pessoas que não escolheram o bem ao longo da sua vida terrena têm de permanecer numa espécie de moratória até poderem entrar no reino dos céus. Muitos são os indivíduos que se servem destas crenças para se aproveitarem de quem as possui, a história narrada neste conto é disso exemplo.  
O educador deverá salientar que os vultos que a população via a vaguear, à noite, no cemitério da cidade serem, simplesmente, a mulher do coveiro enrolada num lençol branco.

O conto contém, ainda, várias referências aos hábitos dos habitantes de uma pequena aldeia. Talvez seja importante relembrar que se trata de um texto recolhido no Alentejo. Atentemos, por exemplo, ao facto de os pastores saírem todas as manhãs da aldeia com os seus animais e só regressarem à noite.  Ao reescrevermos o conto optámos por substituir alguns regionalismos e expressões da oralidade por outras equivalentes do português padrão. Consideramos que as crianças não podem ser descriminadas por recorrerem, na escola a este tipo de vocabulário, uma vez que é este, muitas vezes o conhecimento linguístico que possuem. Parece-nos, no entanto, importante, que a criança vá sendo familiarizada com o português padrão. Assim, substituímos a palavra "enterrador" por coveiro e a expressão " haver um medo no cemitério…" por " algo se passa no cemitério".    



                                                                                   Elsa Martins

31 de Octubre de 2008
   Por: Elsa Maria Candeias Martins
            Miembro Consultor REDEM en Portugal


  
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