Dilercy Adler*
Ao longo do tempo a mãe tem sido homenageada de diferentes formas. É claro, que subjazem várias intenções nessas distinções, embora na maioria das vezes imperceptíveis para grande contingente de pessoas e das próprias mães.
Por outro lado, uma pesada cobrança às mulheres-mães pela adequabilidade dos comportamentos dos seus filhos vigora na maioria das sociedades e, inclusive, na atual. Em geral observa-se que quando alguém quer machucar profundamente outra pessoa xinga a mãe dela.
Assim, nada melhor que o dia dedicado às mães para, deliberadamente, se buscar desvelar alguns outros aspectos, nem sempre expostos com a clareza devida, acerca da responsabilidade desse papel tão reclamado pela vida social.
Entende-se que todo conhecimento científico, por ser obra de um ser humano situado historicamente no tempo e no espaço, resulta em ser, igualmente, permeado pela ideologia no sentido marxista (inversão do real). Por isso não se pode contrapor a ciência à ideologia, dizendo que a primeira é neutra e a segunda comprometida, já que toda ciência nasce ligada a motivações históricas, embora a sua natureza científica não resida nessa motivação.
Com base nessa premissa, não se pode desconsiderar as características da sociedade na qual os pressupostos científicos são construídos.
Desse modo, na psicologia do mundo ocidental capitalista predominam pressupostos que favorecem as características dessa forma de organização social. A seguir exemplifica-se essa afirmativa através de dois psicanalistas, dentre tantos outros teóricos.
Melanie Klein foi pioneira no desenvolvimento da psicanálise para crianças. Grande parte de seu foco de estudo concentrou-se na infância.
A autora acredita que, desde o começo da vida, as primeiras experiências do bebê com a alimentação e com a presença da mãe iniciam uma
relação de objeto com ela, um objeto parcial - o seio da mãe -, o qual pode ser representante do instinto de morte, vivenciado como hostil e devorador (seio mau) ou como representante do amor e da bondade, gratificador (seio bom). O seio "bom" que amamenta e inicia a relação amorosa com a mãe é o
representante do instinto de vida, sendo também sentido como a primeira manifestação da criatividade. Os objetos (seio) bom e mau darão origem ao super-ego e às primeiras noções
de bem e mal. Para Klein, a introjeção do seio é o início da formação do superego. O núcleo do superego é, portanto, o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau. Donald Woods Winnicott refere-se aos conceitos de Mãe ambiente e Mãe objeto, Mãe suficientemente boa.
No início o ser só é possível com outro ser humano. A continuidade de ser é o sentimento que resulta da fusão da mãe suficientemente boa.
A mãe ambiente caracteriza-se pela não existência da noção de separação entre "mãe e bebê". O apoio materno funciona como uma concha protetora, que com o desenvolvimento do ego infantil vai sendo gradualmente retirada. Inicia-se o processo de se tornar um ser de dentro para fora.
Com a mãe objeto a noção de diferença entre o eu e o outro já está presente.
A mãe suficientemente boa é a "mãe devotada comum", inclui a preocupação materna primária - estado inicial de devoção ao filho; capacidade de holding (apoio, sustentação) e de handling (manejo).
Uma adequada maternagem, provinda de uma mãe suficientemente boa, dá-se quando a mãe não frustra nem gratifica, de forma excessiva, e possibilita um sadio crescimento do self do seu filho.
A condição de maternagem requer uma série de atributos e funções da mãe, que tanto podem subsidiar uma normalidade como também uma patogenia. São, portanto, de suma importância os múltiplos aspectos da relação mãe-filho.
Outros estudos científicos reforçam o peso da responsabilidade da mãe, o que de todo não é falso, mas não contemplam, também, a totalidade da responsabilidade na educação dos bebês, crianças, adolescentes e na configuração da maior ou menor saúde afetivo-emocional dos adultos de uma sociedade. A figura da mãe representa um dos determinantes dessa responsabilidade, talvez o de maior peso, mas não o único.
Junto da mãe, existe um pai, irmãos (quando houver), amigos, igreja, escola (professores e colegas), meios de comunicação de massa e o próprio indivíduo.
Por outro lado, sabe-se que todos os papéis de cada ator social apresentam-se em perfeita consonância com o sistema social mais amplo no qual tem sua origem e ao qual serve de instrumento de reprodução das condições de existência dessa mesma sociedade. Assim, não existe uma mãe abstrata, universal em todos os tempos e em todas as sociedades; cada sociedade cria a "sua mãe". A mãe, assim criada, cria os filhos dessa sociedade e para a sociedade.
Não se pode esquecer que, ainda, concomitante a todo esse conjunto de influências existe um sujeito que percebe, interpreta, introjeta e reelabora todas as informações e impressões que chegam até ele. Ele também tem uma importante parcela de responsabilidade na configuração do seu próprio comportamento, já que este resulta das condições sociais objetivas (externas ao sujeito) e das condições subjetivas (internas, próprias do sujeito).
Desse modo, estas argumentações objetivam ratificar que todos os envolvidos em uma dada situação são responsáveis por ela. Assim, na educação dos seres humanos, todos os outros seres humanos são igualmente responsáveis. Liberte-se a mãe do peso da total responsabilidade da execução do projeto da educação/criação do homem social e que todos assumam essa divina responsabilidade para que esse peso, partilhado, se dilua e a leveza e delícia de ser mãe sejam incondicionalmente possíveis!
*Psicóloga e Doutora em Ciências Pedagógicas, com especialização em Sociologia. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão- IHGMA.