BOLETÍN  REDEM
31 de Mayo del 2007
 
              Por:   Elsa Maria Candeias Martins
                        Miembro Consultor REDEM en Portugal

  

   Vivemos numa sociedade em constante transformação. O ritmo de vida que nos caracteriza é cada vez mais acelerado o que faz com que a relação existente entre as diferentes gerações seja hoje praticamente inexistente. Os avós estão na maioria dos casos afastados dos netos, impossibilitando, deste modo, a hipótese destes se enriquecerem através do saber de experiências feito que possuem os mais velhos. Por outro lado, a própria noção de comunidade, tal como existia há uns anos também desapareceu. A figura do "contador de histórias", bem presente ainda na memória de quem teve o privilégio de viver na província, não se extinguiu, mas encontra-se adormecida. Outrora eram personagens fulcrais dos serões à lareira ou dos fins de tarde no largo da aldeia. Tinham o dom de encantar quem os ouvia, através das diversas entoações e da linguagem gestual tão sabiamente usada.

   Actualmente, são os educadores e os professores os adultos a quem cabe o privilégio de estarem mais tempo com as crianças. Por isso, consideramos que estes deverão fomentar o interesse pela literatura oral tradicional. É fundamental que a criança comece por conhecer a sua cultura e a sua literatura através dos textos que vai aprendendo de cor. O que será, aliás, benéfico para as suas primeiras aprendizagens escritas. Ao ter consciência dos fonemas, a criança vai progressivamente fazendo correspondências em termos dos grafemas, das sílabas e posteriormente das palavras. Por outro lado, o facto de estarem constantemente a serem expostos a enunciados orais permite-lhes uma compreensão dos mesmos cada vez mais profunda. O vocabulário e a estrutura frásica serão cada vez mais ricos.

   O reconto promove o desenvolvimento das capacidades cognitivas, linguísticas e sociais e propicia a realização de outras actividades como a pintura, a dramatização ou a dança.

   Estamos conscientes de que muitas das narrativas da nossa tradição são profundamente violentas, não só em termos da intriga como do próprio vocabulário. A solução será reescrevê-los de uma forma mais ligeira para que se tornem mais apetecíveis para os pequenos. Não podemos privar as crianças da leitura destes contos repletos de crenças e de costumes ainda tão vivos nos meios rurais. Moisés Espírito Santo enuncia as crenças mais frequentes do nosso povo na sua obra Comunidade Rural ao Norte do Tejo. A crença nas bruxas é uma das mais usuais; segundo o autor, as mulheres com este estigma obedecem ao seguinte estereotipo: têm mais de 50 anos, são solteiras, não gostam de crianças e vivem praticamente isoladas. A reputação de "bruxa" parece ser ganho a partir do "parece que…" e este rapidamente se transforma em crimes que rapidamente vão sendo exagerados e dos quais a vítima nunca mais se liberta. O interesse destas histórias não reside apenas no que contém de exótico, mas sobretudo pela função que desempenham nas comunidades rurais. Segundo Moisés Espírito Santo, é sobre a "bruxa" que recaem as frustrações do grupo, nomeadamente a inveja, a avareza e a soberba. Ao relembrarmos os contos de fadas e contos tradicionais portugueses verificamos que a "bruxa" é uma personagem que surge com frequência.

   A análise das crenças que percorrem as narrativas permite uma desmistificação de medos infundados. Na verdade, possuímos valores universais suficientes para garantir percursos de vida e de cidadania saudáveis sem a necessidade de recorrer a vias alternativas e repletas de preconceitos. Este parece-nos ser o único caminho para formar seres humanos responsáveis e capazes de fazer as suas próprias escolhas em consciência.
A análise antecipada dos contos propostos às crianças permite alertá-las para as mensagens explícitas e implícitas presentes nos mesmos de modo a minimizar medos existentes e a prevenir outros que possam, eventualmente, surgir. Segundo Bruno Bettelheim na obra Psicanálise do Conto de Fadas, "a tarefa mais importante e mais difícil na educação de uma criança consiste em ajudá-la a encontrar um sentido para a sua vida". Este sentido para a vida não se adquire automaticamente e a criança precisa aprender a conhecer-se e fá-lo segundo as suas capacidades do momento e de acordo com o seu nível de desenvolvimento psicológico.

   Segundo Bettelheim, as crianças ao ouvirem e ao contarem, elas próprias, contos de fadas estão a lidar com problemas humanos universais e especialmente com os que preocupam o espírito da criança. As histórias encorajam o seu desenvolvimento e aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

   As posições assumidas pelos autores não são, no entanto, consensuais no que respeita ao contributo dos contos na formação pessoal e social das crianças. Divergências estas que ocorrem principalmente em relação aos contos de fadas. Hugo Cerda, Ideologia y cuentos de fadas (1985), atribui ao conto de fadas um papel fortemente negativo na formação das crianças. Segundo o autor, as crianças interiorizam preconceitos que pouco ou nada têm a ver com a sua cultura e com a época em que vivem. Se houver um trabalho prévio de compreensão dos aspectos culturais, sociais e até políticos para serem trabalhados posteriormente com os alunos parece-nos que este será sempre um exercício enriquecedor para a criança.

   A questão da activação do desenvolvimento psicossocial na infância parece-nos essencial de ser estudada por educadores e professores. Após algum tempo de reflexão fixámos a nossa atenção nos contos tradicionais e nos contos de autor mais narrados às crianças. A partir da análise de alguns destes contos, assim como da observação directa que efectuámos relativamente à forma como as crianças se identificam com algumas das personagens, através das questões que colocam, das reflexões que apresentam, parece-nos poder afirmar que estes contribuem efectivamente para a activação do desenvolvimento psicossocial das crianças. Os efeitos são visíveis em apenas alguns meses, contrariamente ao que nos parece acontecer em termos cognitivos. Neste domínio, as conquistas são bastante mais difíceis de obter.

   Os contos infantis estão repletos de heróis e de vilões. A recompensa dos "bons" e o castigo exemplar que recebem os "maus" parece-nos constituir, igualmente, uma lição que visa a assimilação por parte das crianças do bem em relação ao mal. Contribuindo, deste modo, para o enriquecimento psíquico que o reforço do bem traz consigo. As crianças distinguem de imediato as personagens "boas" das "personagens más". Talvez o elemento estético tenha alguma influência porque as personagens "boas" são sempre jovens e belas, enquanto os maus da fita são velhos e feios. Esta associação sistemática deixa implícita a ideia de que a beleza está associada à bondade e à juventude, enquanto a velhice está associada à maldade e à fealdade. Também nós, no dia-a-dia, reforçamos, embora inconscientemente, esta associação através de frases como as que se seguem: "Que menina tão feia a chorar" ou "As meninas bonitas não choram". Parece-nos importante descodificar este tipo de mensagens que os contos veiculam. Nem todas as raparigas belas e jovens são pessoas íntegras e nem todas as pessoas feias são más. O que nos permite igualmente alertar para o perigo de fazermos juízos de valor através de dados falíveis como são as aparências.

   Por todas as razões enunciadas consideramos que o reconto oral deve ser uma prática frequente dos jardins-de-infância e das escolas do nosso país, uma vez que estes contribuem para a "construção" de seres humanos conscientes e responsáveis.

Referências Bibliográficas
BETTELHEIM, B., Psicanálise dos contos de fadas, 1ªed., Lisboa, Editora Bertrand, 1975
ESPÍRITO-SANTO, M., Comunidade ao Norte do Tejo, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1999
LOURENÇO, O. M. ,Psicologia de desenvolvimento moral, Almedina, Lisboa.2002.

Contributos da oralidade na formação de futuros leitores
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