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O conto popular "A Gata Borralheira" e o conto de Sophia Andresen" com o mesmo título - um estudo comparativo
   Sophia de Mello Breyner Andresen é uma das autoras mais estudadas no 3º Ciclo e no Ensino Secundário. Obras como O cavaleiro da Dinamarca,"A Gata Borralheira" e variadíssimos poemas da autora continuam a ser uma referência obrigatória na aula de Língua materna do 3º Ciclo do Ensino básico. Os contos exemplares surgem-nos na lista dos livros propostos pelo Ministério da Educação para se celebrar o contrato de Leitura com os alunos que se encontram a frequentar o Ensino Secundário.

Apresentaremos em seguida uma pequena análise do conto "A Gata Borralheira". A escolha do conto recaiu no facto de constar nos currículos do Ensino Básico o estudo do conto popular e do conto de autor. Razão pela qual propomos um estudo comparativo entre o conto popular " A Gata Borralheira" e "A Gata Borralheira" de Sophia de Mello Breyner. Apesar das fortes influências que os textos da autora possuem da literatura oral as diferenças existem. A linguagem utilizada por Sophia merece ser referenciada: a simplicidade estilística e o rigor da escolha das palavras são uma evidência. Não encontramos grandes malabarismos conceptuais, por opção nítida da escritora. A simplicidade linguística prende-se com a tentativa de captar o real. Característica que a aproxima, neste texto dos textos da oralidade, graças à sua clareza de linguagem, o que facilita a compreensão do conteúdo e o ritmo imposto pela pontuação muito próximo do ritmo dos contadores de histórias. Características estas que seduzem o leitor e muito concretamente os leitores mais novos.      
A análise que propomos não visa um estudo clássico do texto tendo em conta as categorias da narrativa. Visa, simplesmente, estabelecer uma comparação com o texto tradicional e simultaneamente propor uma reflexão acerca da lição de moral que ambos transmitem. Talvez valha a pena verificar se essa lição de moral é coincidente em ambos os textos e de que forma é ou são construídas.

O conto tradicional "A Gata Borralheira" é, como sabemos, uma das histórias mais contadas às crianças em sessões que animavam os serões de outros tempos. Estas, encontravam-se dependentes da relação estabelecida entre o contador e os seus ouvintes. Factores como o ritmo atribuído às palavras, ou a ênfase dada aos excertos capazes de suscitar o medo, ou o riso estão directamente relacionados com os ouvintes. Esta será, muito possivelmente, uma das razões pelas quais encontramos múltiplas versões da mesma narrativa aquando da sua fixação. A literatura era como já referenciámos um fenómeno social. Foi precisamente a partir do livro impresso que a leitura se tornou um hábito individual. Sabemos que a leitura individual requer um maior esforço e exige uma maior disponibilidade temporal. Há um factor a ter em conta: a ilustração. A sua função é de enorme importância. Não deverá, por isso, ser menosprezada pelo professor. Poder-se-á dizer que as imagens facilitam a compreensão textual, reduzindo, o exercício mental necessário à descodificação do código escrito e à consequente apreensão dos conteúdos. Uma outra crítica recorrente diz respeito ao facto de limitar a criatividade dos jovens. Arriscamos afirmar que depende da qualidade das imagens apresentadas. O ilustrador deverá propor-se a construir imagens sugestivas, que impliquem o jovem de modo a permitirem leituras variadas. As ilustrações nunca deverão permitir a compreensão da acção principal de uma narrativa sem haver necessidade do jovem a ler efectivamente.

É inegável a presença dos contos nas nossas vidas. Seja através da transmissão oral ou através da leitura. No entanto, as escolas e as universidades têm resistido ao estudo da literatura oral tradicional. Muito embora o estudo dos contos orais conste dos curricula oficiais estes foram sempre encarados como um género menor. Leccionados muitas vezes com alguma desconfiança e sem lhes ser dada a importância devida. Atitude até certo ponto compreensível na medida em que os professores não tiveram nenhuma cadeira especificamente destinada à Literatura oral e tradicional na Universidade. A desconfiança devia-se à falta de formação na área. Actualmente os preconceitos relativos à Literatura popular estão a esbater-se, para isso muito contribuiu a introdução de cadeiras desta área nos Cursos Superiores Universitários, na área das Línguas e Literaturas e de Seminários de Mestrado e de Doutoramento. Os docentes começam a aceitar o conto tradicional como uma estratégia privilegiada da acção educativa. Estratégia capaz de favorecer a imaginação, a memória, a aculturação e os conhecimentos.

Apesar dos progressos verificados estamos conscientes de que há, ainda, um longo caminho a percorrer. A formação é, seguramente, o trajecto mais seguro para mudar a mentalidade vigente.

A exploração dos contos ao nível do 3º Ciclo é multifacetada na medida em que podem ser sujeitos a uma análise literária e linguística na aula de língua materna mas podem ser igualmente servir de estratégia para atenuar ou prevenir crispações oriundas pela diferença. As aulas de Educação cívica constituem excelentes momentos para estas abordagens. As narrativas constituem uma excelente forma do professor abordar temáticas mais delicadas, de suscitar o confronto de ideias apelando à necessidade de respeitar as ideias diferentes das nossas. Contribuindo, desta forma, para o desenvolvimento psicossocial dos alunos.    

A sociedade tem vindo a sofrer alterações significativas nas últimas décadas e a escola enquanto instituição que é não constitui excepção.  Miúdos de diferentes raças e de diferentes cores de pele, pertencentes a diferentes religiões convivem no espaço escola e nem sempre pacificamente. Alunos com um acentuado grau de dificuldades estão integrados nas turmas consideradas normais. O que nos parece ser um excelente princípio tem forçosamente de ser trabalhado porque como é sabido as crianças e os adolescentes destas faixas etárias são extremamente cruéis uns com os outros. Recorrem às diferenças físicas para se agredirem verbalmente magoando e muitas vezes originando complexos nos colegas visados diariamente nos corredores e nos recreios das nossas escolas. As consequências destas atitudes são muitas vezes difíceis de resolver os jovens podem recusar-se a ir à escola. O que origina um sentimento de aversão à escola e à aprendizagem, ao isolamento nos pátios da escola, enfim, a deixarem de ter um crescimento saudável como seria de esperar. Os professores deverão ter um papel interventivo enquanto os pais deverão estar muito atentos às mudanças comportamentais dos seus filhos.
O texto "A Gata Borralheira" apresenta-nos um conjunto de elementos comuns à restante literatura de Sophia. A presença da natureza, por exemplo, é visível ao longo do conto: "cheira bem, cheira a erva cortada, a buxo, a tílias, a madressilva…"a descrição a que assistimos reporta-se a um jardim, espaço de eleição de Sophia. Também as alusões à noite nos surgem bem patentes no conto: " o brilhar do luar entre as sombras e as folhas das árvores, o reflexo da lua no lago. O lago parece um espelho. É uma noite mágica".  
No que respeita à linguagem este texto não constitui excepção trata-se de uma linguagem bastante clara.
Atentemos, agora, aos exempla patenteados em cada um dos contos. E vejamos como se constroem. No conto oral/ tradicional deparamo-nos com uma rapariga pobre e maltratada pela madrasta que a obrigava a fazer as tarefas domésticas enquanto ela e as filhas descansavam e se divertiam. A rapariga vestia-se pobremente enquanto as filhas da madrasta se vestiam com aprumo e algum luxo. Deparamo-nos, igualmente, com um elemento sobrenatural: a fada. A fada encanta-a oferecendo-lhe um vestido adequado, um par de sapatos e uma carruagem para que se pudesse deslocar sem correr perigos. Avisa-a que o encanto cessará à meia-noite.

Ao se aperceber que é quase meia-noite sai rapidamente do baile e perde um sapato.
O Príncipe que não havia esquecido os encantos da rapariga convida todas as jovens do reino a dirigirem-se ao palácio e a experimentarem o sapato que havia sido encontrado no jardim.

A madrasta e as suas filhas gozam com ela e obrigam-na a ficar em casa enquanto elas se dirigem ao Palácio para experimentarem o sapato.
O Príncipe desiludido por nenhuma das jovens conseguir calçar o sapato ordena que todas as raparigas venham ao Palácio sob pena de cerem sancionadas.
Ao ver a Gata Borralheira calçar o sapato o príncipe fica hilariante por ter encontrado, finalmente, a sua amada e  pede-a em casamento de imediato.
A madrasta e as filhas ficam furiosas e não compreendem como pode ser a Gata Borralheira a donzela dos sonhos do Príncipe.

O bem vence o mal no final da narrativa o que é aliás usual na literatura oral/ tradicional. Assistimos, assim, à heroína sofredora pelos maus tratos da madrasta e das filhas desta acabar por ser recompensada. Ao invés das personagens maléficas que acabam exemplarmente castigadas.
O elemento sobrenatural, a fada, como já referimos anteriormente, surge no conto com o intuito de ajudar a rapariga trabalhadora e mal tratada. Surge para restabelecer a justiça. Curioso é, igualmente, verificar que nos contos orais e tradicionais o número de elementos que os entes sobrenaturais dominam é directamente proporcional ao poder que possuem. Neste caso a fada domina o ar uma vez que surge do "vácuo" e através da varinha consegue fazer aparecer bens materiais também do "vácuo".

Ao compararmos a construção do exemplum no conto "A Gata Borralheira" de Sophia de Mello Breyner Andresen percepcionamos diferenças na sua construção. A autora começa por enunciar a existência de dois caminhos possíveis para a personagem. Aludindo, deste modo, ao livre arbítrio do ser humano. A frase: "Viver é escolher" sintetiza o que acabámos de referir. Esta noção de que o ser humano é o responsável pelo seu destino está patente nos textos de Sophia como é o caso do conto "Viagem" que analisaremos posteriormente.
A Gata borralheira de Sophia tem de decidir viver uma vida com o pai falido e os irmãos existência feliz mas modesta. A jovem tem assim de optar entre uma juventude sossegada, sem vida social e viver em casa da madrinha e ter acesso a um mundo a que sempre sonhou pertencer. O primeiro contacto que teve com esse universo foi num baile na casa da madrinha. Foi de vestido emprestado e com uns sapatos rotos. Fizeram-lhe perceber que ela não pertencia aquele mundo. Foi gozada e humilhada. A sua escolha havia sido feita nessa altura: Tenho de escolher outro caminho. Um dia hei-de voltar aqui com um vestido maravilhoso e com sapatos bordados de brilhantes."

Na verdade, a sua vida mudou radicalmente a partir do momento em que decidiu ir viver com a tia. Casou com um homem abastado, o tempo parecia não a afectar já que não envelhecia e até parecia estar cada vez mais bela.

As amizades eram cada vez mais e tinha sucesso em tudo o que fazia.
Haviam já passado vinte anos desde o momento em que havia decidido  não continuar a ser humilhada. Recebeu um convite para um baile precisamente na mesma casa e na mesma noite de Junho. Aceitou o convite e resolveu apagar com a riqueza que possuía agora a humilhação do passado. Encomendou uns sapatos de brilhantes verdadeiros. Talvez por terem sido os sapatos uma das principais causas da humilhação sofrida. Na noite do baile todas as atenções se viraram para ela. Voltou à sala onde se havia refugiado 20 anos antes e do espelho saiu um homem. Também ele "ostentava inteligência, poder, pose e domínio". Pediu-lhe de imediato o sapato do pé esquerdo à Gata Borralheira que não lho quis dar. Perante a recusa apresentou-se como sendo "o outro caminho"48 que ela havia escolhido vinte anos atrás. Lembrou-lhe que desde há vinte anos ela só conhecia a glória e o sucesso enquanto os outros haviam conhecido humilhações e outras espécies de privações. Razão pela qual queria o sapato do pé esquerdo dela e concluiu com uma expressão enigmática " é o preço do mundo".

De manhã foi encontrada morta e a causa apontada foi uma síncope cardíaca. Para o sapato de ceda azul roto e manchado é que não havia explicação.
Ficará implícito que o preço do mundo que este ser sobrenatural lhe pede será uma alusão à expressão "vender a alma ao Diabo?" Haveria uma espécie de pacto com as forças do mal em que se trocaria a alma em troca de uma vida de sonho?
Encontramos semelhanças nítidas entre as personagens O príncipe deste mundo do conto "Retrato de Mónica" e o convidado distinto que nos surge no conto "O jantar do bispo". Também o Homem que nos surge no conto"A Gata borralheira" de Sophia tem o poder de dominar igualmente a matéria sólida como constatamos com o seu aparecimento de dentro do espelho da sala.

O exemplum que retiramos das duas narrativas é semelhante apesar dos meios de o conseguir serem diferenciados. O texto tradicional recompensa a personagem sacrificada pelos maus-tratos que recebeu. O que é, aliás, recorrente nos textos da literatura oral e tradicional em que o bem vence o mal. No conto de Sophia Mello Breyner assistimos a um percurso interior da personagem mais complexo. A menina pobre é assediada pelos requisitos de um mundo aliciante pelo qual se sente atraída. Opta entre uma vida modesta com o pai e os irmãos e a riqueza. Deslumbra-se e escolhe a segunda opção. Durante vinte anos vive confortável ostentando riqueza e poder mas necessitava de olhar o vestido que guardava da noite em que havia sido humilhada. Talvez numa tentativa de encontrar forças para se manter fiel à opção que havia tomado.

O sucesso foi-lhe cobrado e no auge da glória pagou-o com a própria vida. Sophia finaliza o seu conto penalizando a personagem que optou pelo materialismo em detrimento do valor da família. Sophia deu liberdade de escolha à personagem que construiu e sugere-nos através do seu exemplum de vida o facto de não podermos escapar às consequências de determinadas opções que fazemos.

                          Elsa Martins

30  de Noviebre del 2007
   Por: Elsa Maria Candeias Martins
            Miembro Consultor REDEM en Portugal