Educar as nossas crianças de modo a aprenderem a cuidar de si mesmas, dos outros e do meio ambiente são directrizes pré-definidas pelas Nações Unidas. Estas são consideradas como uma fórmula de excelência para evitar conflitos e resolver problemas através do diálogo. A questão está em saber aplicar estas directrizes no quotidiano das famílias, elas próprias também em processo de transformação. As famílias constituídas apenas por um dos progenitores são cada vez mais frequentes o que conduz muitas vezes à existência de pais culpados, ao excesso de consumo como uma tentativa de compensação dos afectos, à proliferação de crianças autoritárias e a uma multiplicidade de dúvidas no que respeita ao uso da autoridade.
Assistimos nestes últimos 40 anos a profundas alterações na nossa sociedade o que tem repercussões ao nível dos desafios que se colocam às famílias. O ritmo de vida acelerado em que nos habituámos a viver não se coaduna com o tempo de que necessitamos para incutir nas crianças os valores de que necessitam para enfrentar as vicissitudes da vida. É do senso comum que para educar é necessário tempo e que este mais não é do que uma aposta num futuro equilibrado das novas gerações e das sociedades vindouras. O papel da família é essencial nestes primeiros anos da vida da criança e a grande questão é que o próprio conceito de família tem vindo a sofrer alterações. Há 40 anos atrás considerava-mos que nos encontrávamos perante uma família estruturada quando esta era constituída pelos dois progenitores, casados, e pelos respectivos filhos. Todas as outras organizações eram consideradas como famílias não estruturadas. Aquando das alterações em termos de organização familiar se começaram a acentuar muitos foram, aliás, os que questionaram o fim da instituição família. A noção de família não desapareceu, nem irá desaparecer o que aconteceu foi que se desdobrou num conjunto de outras possibilidades, cada uma com as suas dificuldades e as suas potencialidades para construir um lar em que reine a harmonia. Parece-nos que a grande mudança consistiu em se ter abandonado a possibilidade de definir família pelos laços sanguíneos passando a entender-se como um conjunto de pessoas ligadas por um compromisso de cuidar de terceiros e de contribuir para o desenvolvimento de cada um dos seus membros. Há, assim, um alargamento da noção de família em que as famílias de acolhimento, a adopção entre outras ganham o espaço merecido. A noção de que a família é quem cuida e não quem, por acaso, nasce com ligações de sangue a outrem, parece-nos muitíssimo importante.
Mas as alterações não se cingiram às já descritas assistimos, também, a uma mudança acentuada ao nível da forma como os pais educam os filhos. Passámos de um modelo marcadamente hierárquico, em que a autoridade do pai e da mãe não era sequer colocada em causa para um modelo de quase permissividade. Em muitos casos parece-nos ter havido uma interpretação errónea das teorias educacionais o que gerou um medo secreto dos pais e de outros adultos que convivem com as crianças em não lhes satisfazer as vontades com receio que estas fiquem traumatizadas. O somatório da falta de tempo que os pais possuem para as suas crianças acrescido das compensações materiais que lhes dão assim como da preocupação extrema em não as contrariar no pouco tempo em que estão juntos resulta em alguns casos na produção de pequenos ditadores no interior das famílias: as crianças. Assistimos a crianças que fazem birras porque não lhes compram isto ou aquilo, porque não vão aqui ou ali ou simplesmente porque não sabem lidar com um "não". Todos sabemos que ao longo da nossa vida temos de lidar com contrariedades de diversa índole e quanto mais cedo aprendermos a aceitar essa realidade melhor conseguiremos lidar com ela. Consideramos que o importante é que tenhamos a noção de que quer nos encontremos perante uma família de sangue ou perante uma família de "acolhimento" o importante é que se fomente o respeito, a autoridade, o diálogo, a noção do limite e o amor.
Elsa Martins
Por: Elsa Maria Candeias Martins
Miembro Consultor REDEM en Portugal
As novas estruturas familiares, a escola e a educação das novas geraçães.