Em pleno início do terceiro milênio chama a atenção a continuidade do descalabro em que se encontra o crédito no sistema de ensino, principalmente nas últimas décadas.
Sabe-se que todo sistema de ensino existe em perfeita consonância com o sistema social no qual tem sua origem e ao qual serve de instrumento de reprodução das condições de sua existência.
Em um sistema social, marcado pela desigualdade, torna-se pertinente o mascaramento dessa desigualdade e, para tal, faz-se necessário que a grande maioria da população não tenha acesso ao saber reflexivo e crítico para não desmontar a ordem social estabelecida.
Por outro lado, torna-se indispensável uma elite de tecnoburocratas que sirva ao sistema, legitimando-o e imputando à população em geral e ao segmento profissional, formado pela escola, desse mesmo sistema, a crença de sua incompetência.
Várias estratégias, então, são forjadas para "reparar" a falta de qualidade, instaurada nos diversos graus de ensino. Uma delas, talvez a mais perversa, seja o alongamento do vértice da pirâmide escolar através da criação de mais graus de ensino. Hoje, o sistema escolar brasileiro conta, no seu ensino regular, com: a Educação Infantil, o Ensino Fundamental, o Ensino Médio, o Ensino Universitário e a Pós-Graduação, com seus quatro níveis: Especialização, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado.
Nesse contexto, a criança que entra na Educação Infantil aos 04 anos, conclui o Ensino Médio aos 17 anos. Dependendo de sua classe social e das condições escolares, pode ingressar no Ensino Universitário, cujos cursos têm duração de 03 a 06 anos, podendo, então, dos 20 aos 23 anos estar "preparado" para o ingresso no mercado de trabalho, como profissional do trabalho intelectual.
*Dilercy Aragão Adler é Psicóloga, Especialista em Sociologia, Mestre em Educação e Doutoranda em Ciências Pedagógicas.
É claro que, ao optar por uma profissão universitária, este cidadão terá que cursar níveis de pós-graduação se quiser ascender no plano de carreira de sua Empresa ou Instituição. Cursos que terá que custear e, na grande maioria dos casos, fazê-los concomitante ao trabalho (só as Instituições Públicas liberam do trabalho os seus servidores e financiam as suas pós-graduações).
Em linhas gerais, é nesse trajeto que é dada a formação acadêmica e, é ainda, num circuito de competitividade e ansiedade que esse profissional desempenhará as suas funções.
Competições que nem sempre observam as condições dos mais preparados ou mais dedicados; competições num mercado de poucas ofertas e de "exército de reserva" exacerbado; competições, também, nas quais o respeito à condição humana, via de regra, inexiste.
Uma segunda estratégia mais recente e "inovadora" para combater a falta de qualidade são os provões. Provão para os alunos da Universidade, agora provão também para os professores...provão... provão...
Desse modo, constata-se, que a preocupação não é com a avaliação, mas com provão.
A avaliação é um procedimento comumente usado em situações diversas e também, inquestionavelmente, necessário. Isto porque objetiva averiguar as condições reais do objeto avaliado, visando à superação ou minimização das distorções constatadas. Logo, não tem, em nenhum momento, a finalidade de punir ou depreciar, mas de aperfeiçoar as condições inerentes à situação do objeto avaliado.
Sabe-se também que avaliar de forma racional e coerente torna-se um procedimento difícil, quase inacessível, numa sociedade cujos membros vivem competindo entre si. Isto porque os seus erros, nessa perspectiva, tornam-se ameaçadores enquanto possibilidade de perda de prestígio social e perdas econômicas. Daí resulta em que a criação de estratégias que desvirtuam resultados são muitas vezes utilizadas.
Convém lembrar que provas ou testes podem ser utilizados como instrumentos de avaliação, mas não podem constituir-se como únicos instrumentos.
A Ordem dos Advogados do Brasil-OAB, por exemplo, já instituiu, há alguns anos, exames para obtenção do título de advogado, para os graduados em Direito. Mais recentemente, alguns Conselhos Profissionais também estão instituindo algum tipo de exame. Atualmente, o Conselho de Psicologia está credenciando Instituições de Especialização e fazendo exames com psicólogos, conforme as suas especializações.
Analisando esse quadro atual, na educação brasileira (o qual na realidade encontra-se plenamente adequado ao modelo de sociedade vigente), pergunta-se: Não seria mais coerente todos os graus de ensino serem dotados de qualidade? Não seria mais humano formar um aluno capaz de pensar, refletir e reelaborar teórica e praticamente os conhecimentos a ele repassados? Não é esta a finalidade maior da escola: estender às gerações mais jovens todo o capital cultural acumulado, pelas gerações passadas, de modo a lhes possibilitar a sua reelaboração, reinvenção, propiciando o avanço das ciências, visando ao bem-estar de toda a sociedade?
Mas, aí está o nó, o ponto de estrangulamento da possibilidade de superação das anomalias do sistema atual de ensino: Como cumprir a verdadeira vocação da escola democrática sem riscos de mudar a estrutura da atual sociedade? Isso interessaria ao segmento hegemônico da sociedade brasileira?
Com a impossibilidade (im)posta, só restam as opções dos provões, dos exames nacionais, dos exames dos conselhos, dos exames, exames e exames... ....
É mister que cada profissional, cada cidadão, faça um exame sim, mas de consciência, de coerência para que se possa construir e viver numa sociedade com menos tensões, menos pressões, com mais competência, com mais saúde física e mental, enfim, mais feliz!...