O PAPEL DO JOGO NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
Enquanto professores e investigadores várias vezes nos colocamos as seguintes questões: Como favorecer uma educação para a autonomia? Como desenvolver a empatia, a entreajuda e a cooperação num contexto em que se exigem relações humanas mais exigentes? Qual o lugar do jogo no desenvolvimento das crianças? Como contribuir para um desenvolvimento das crianças sócio - culturalmente desfavorecidas?.
Estudamos aprofundadamente a obra Educação e Desenvolvimento Social da Criança, Almedina, Coimbra, 1979, de Vandenplas-Holper em que o autor nos propõe uma tentativa de integração das teorias da aprendizagem social e das teorias do desenvolvimento cognitivo. Tenta ainda demonstrar que as mais recentes investigações se propõem contrariar a tradicional oposição entre a concepção de um indivíduo passivamente modelado pelo meio e um sujeito que estrutura activamente o seu ambiente físico e social. São várias as investigações apresentadas. Todas elas partiram de concepções epistemologicamente diferentes, há, no entanto, uma conclusão que se retira: são as práticas educativas utilizadas no quadro das pedagogias activas que mais contribuem para o desenvolvimento social.
A obra supracitada representa uma mais - valia para pais, educadores e professores na medida em que informa o leitor das recentes investigações no domínio do desenvolvimento social, facilita-lhe a compreensão dos princípios que governam o desenvolvimento social através de exemplos da vida quotidiana e mostra as implicações práticas que deles decorrem para pais, educadores e professores.
A questão da importância do jogo e a sua relação com o desenvolvimento social mereceu toda a nossa atenção na medida em que o jogo é uma situação privilegiada de interacção e de desenvolvimento social. Os jogos sócio -dramáticos exigem que a criança analise a experiencia pessoal, para seleccionar elementos importantes e susceptíveis de serem aplicados no jogo. Um jogo sócio -dramático caracteriza-se por ser realizado por vários parceiros, consiste na imitação de uma personagem, na ultrapassagem desta mesma imitação através da adjunção de vários elementos do faz de conta ou das ordens que os diferentes parceiros dão uns aos outros. Nesta modalidade de jogo a criança adapta-se às proposições, às ordens e aos pedidos dos seus companheiros de grupo. É, assim, obrigada a ultrapassar o seu ponto de vista egocêntrico para o adaptar às exigências da cooperação, dando especial atenção aos desejos, às necessidades e às motivações dos outros. A criança é obrigada a cingir-se às limitações que o seu papel lhe impõe. Assim, por exemplo, "uma criança faz de piloto, cai e tem vontade de chorar. Controla rapidamente a sua primeira reacção, dado que "os pilotos não choram." O que permite afirmar a Singer (1973) que o jogo contribui para o auto-controlo das crianças. Um outro aspecto que nos pareceu importante prende-se com o facto das crianças para desempenharem o seu papel sócio -dramático partirem de experiencias particulares que viveram. Ao fazer de mãe, de professora ou de enfermeira não tem como ponto de referencia o conceito geral de mãe, mas sim uma pessoa particular e definida. Por outro lado, alargam os seus conhecimentos por intermédio da experiencia das outras crianças o que lhe permite generalizar. Quando uma criança representa o papel de mãe e apresenta atitudes diversas das da mãe da outra criança esta é levada a alargar o seu conceito inicial de mãe. O que lhe permite aperceber-se da multiplicidade e da diversidade das exigências parentais e, por isso, revitalizá-las. Revitalização essencial no domínio do desenvolvimento moral uma vez que permite à criança passar da heteronomia para a autonomia.
Por: Elsa Maria Candeias Martins
Miembro Consultor REDEM en Portugal