SOCIEDADE, HOMINIZAÇÃO E VIOLÊNCIA1
Dilercy Aragão Adler2
A sociedade não é apenas algo fora de nós, ela se faz presente no nosso ser mais íntimo. Durante o processo de nosso desenvolvimento, vamos, paulatinamente, internalizando muitas das suas conformações. Assim, a sociedade nos envolve, modela a nossa forma de pensar, sentir e agir. Logo, as estruturas da sociedade tornam-se, assim, as estruturas do nosso próprio ser. Nessa perspectiva, a nossa singularidade, resulta da forma que apreendemos e reelaboramos (individualmente), determinadas características (em suas intensidades) do contexto social mais amplo, introjetando-as.
Podemos afirmar que o processo de socialização é um processo de hominização. O indivíduo parte de um estágio bastante primitivo, para estágios mais avançados em que se torna capaz de contatos verdadeiros com outro indivíduo, sentindo com ele, colocando-se em seu lugar e vendo as coisas através de suas perspectiva pessoais. Isto é, ele se torna capaz de amar, cooperar, compreender, acolher e respeitar o espaço do outro. Hominizar é, pois, simplesmente socializar. É fazer o projeto de homem alcançar, progressivamente, a configuração de homem, segundo o melhor parâmetro que o ser humano tenha alcançado.
No entanto, ao lado da cooperação imaginária, da qual resultou a vida em sociedade, o homem desenvolveu formas de violência e dominação. A história da humanidade comprova que a civilização humana se erigiu com o uso da força e da violência, tanto nas relações entre indivíduos quanto entre sociedades.
No caso do capitalismo, a necessidade de expansão de mercado e as suas leis, com vista à busca de lucros, resulta, em que, todos os valores autenticamente humanos sejam destruídos pelo capital, tudo passa a ser mercadoria, tudo pode ser comercializado.
A competitividade e o individualismo nesse complexo emaranhado de valores com ênfase no ter (em detrimento do ser), no consumismo exacerbado, levam, os indivíduos, independente da classe social, a buscar meios de obter reconhecimento social a partir da riqueza, mesmo que para isso tenha que utilizar meios ilícitos e a própria criminalidade. Assim, convive-se, também hoje, com um medo constante, com insegurança que nos faz ter receio de tudo e de todos.
Um exemplo disso é testemunharmos hoje, no Brasil um quantitativo razoável de crimes e transgressões por pessoas de classes sociais distintas, muitas vezes lado a lado. Convém lembrar, que esse não é um fato novo, sempre existiu, acredita-se, no entanto, que antes as barreiras para a elucidação e denúncia das corrupções e crimes envolvendo as elites, eram mais difíceis de serem transpostas.
É necessário deixar bem claro, que o indivíduo realmente socializado é aquele capaz de uma verdadeira interação, que compreende uma relação em nível horizontal, onde há reciprocidade, afetividade e respeito mútuos e um autêntico compartilhar de sentimentos e situações, sem perda da identidade e da consciência.
A verdadeira interação será sempre caracterizada por trocas mútuas e conscientes. Indivíduos que estão juntos, que "percebem" o outro, que cooperam entre si, que se dão, que se entregam, que se enriquecem, que compartilham emoções e sentimentos que participam de um mesmo clima emocional, com uma comunicação real entre si.
Finalmente, os indivíduos que interagem não devem estar contaminados por interpretações ideológicas da realidade, mas capazes de uma comunicação plena de significado para os dois.
Raramente numa sociedade marcada pela desigualdade o diálogo verdadeiro é possibilitado. Isto porque o diálogo verdadeiro só é possível numa relação entre iguais. Convém lembrar que a igualdade aqui referida passa, principalmente, pelo respeito às diferenças sem o que não se pode falar em igualdade.
Pode-se concluir do exposto que a maioria das pessoas na sociedade contemporânea, embora já adultas e maduras, encontra-se, ainda, em um grau muito grande de atraso no processo de socialização, incapazes de relacionarem-se de forma autêntica e solidária e, por isso, é premente que reflitamos sobre essa situação e busquemos, coletivamente, formas alternativas de superação dessa condição.
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1 Artigo publicado no Jornal O Debate, nº 31.
2 Psicóloga e Doutora em Ciências Pedagógica, com especialização em Sociologia.