O presente texto tem como objectivo fundamental sensibilizar pais, educadores e professores para a importância da leitura na formação da identidade das crianças, na activação do seu desenvolvimento psicossocial e simultaneamente na criação de hábitos de leitura.
O papel dos pais, dos educadores e dos professores do 1º Ciclo do Ensino Básico parece-nos ser fundamental, senão decisivo na relação que a criança vai estabelecer com o livro ao longo da vida. Razão pela qual consideramos urgente haver uma sensibilização aos pais para dedicarem algum do tempo de que dispõem para proporcionarem aos filhos um contacto com o texto oral e escrito. Por outro lado, a sensibilização e a formação de educadores e professores dos primeiros níveis de ensino parece-nos ser cada vez mais importante. Não podemos esquecer que as crianças passam grande parte do seu dia nos estabelecimentos de ensino. E estas idades parecem ser decisivas para a criação de hábitos que se tornarão mais tarde necessidades. O gosto por ouvir contar histórias e posteriormente de manusear livros não constitui excepção.
Nestes graus de ensino há que atribuir um papel fundamental ao reconto oral. Actividade que permite à criança um primeiro contacto com a literatura muito antes de aprender a ler. Quanto mais cedo acontecer esta proximidade entre a criança e a literatura maior será o seu domínio da língua falada e escrita. Domínio da língua este que segundo a opinião de professores e de escritores portugueses é cada vez mais deficitário. Actualmente as dificuldades dos alunos ao nível do domínio da língua materna verificam-se em todos os ciclos de ensino. Os enunciados orais que produzem são, na generalidade, pouco estruturados deixando transparecer o turbilhão de ideias que povoa o seu pensamento. Por sua vez o domínio da língua escrita oferece um leque ainda mais vasto de dificuldades. Não raras vezes revelam uma incompreensão senão total pelo menos parcial dos textos que lhes propomos e conceitos como "resumo" ou "comentário" são para eles completamente irrealizáveis.
Apontamos como principal causa do insucesso descrito a falta de hábitos de leitura. Os jovens recusam-se a ler. Certo é, que a sociedade actual lhes proporciona actividades muito mais apelativas do que a leitura. Consideramos, no entanto, que esta recusa se deve essencialmente ao facto de nunca terem tido uma relação próxima com o livro. A maioria das famílias portuguesas não considera ainda a aquisição de obras literárias como uma prioridade. As razões que o justificam são de variada ordem ousamos, no entanto, apresentar duas: o custo elevado dos livros em Portugal e a falta de hábitos de leitura da generalidade das famílias portuguesas.
Em Portugal os livros ainda são considerados objectos de luxo e a comprová-lo está o seu elevado custo de mercado. Handicap que poderia, no entanto, ser ultrapassado se houvesse entre nós uma cultura do livro. As Bibliotecas Municipais e as Bibliotecas das escolas encontram-se muitas vezes vazias e frequentadas por um grupo de leitores especializados e de alunos em véspera de entregar trabalhos a uma qualquer disciplina. Neste último caso preferem pesquisar na Internet em vez de contactarem com o livro. No que respeita ao que em cima designámos por leitores especializados referíamo-nos aos indivíduos possuidores de um grau académico: Licenciados, Mestres e Doutores. Certo é que o número de graus académicos tem vindo a aumentar em Portugal quando comparado com o obtido há vinte ou trinta anos atrás. Mas não podemos esquecer que estes constituem uma pequeníssima parcela dos cidadãos portugueses.
O acto de ler exige calma e sobretudo silêncio. Ousamos afirmar que nos encontramos distantes de uma cultura virada para o prazer do conhecimento. Conhecimento esse, que implica: esforço, tempo, paciência e silêncio. Só após se atingir um certo grau de instrução se pode ter prazer em aprender e ter simultaneamente a noção de que sabemos sempre muito pouco do que há para saber. Ao invés do que acabámos de descrever encontramos uma sociedade que vive em função do imediato, não há tempo para ler, muito menos há tempo para reflectir no que se leu e a disponibilidade para escrever é nula. A população está, na sua generalidade, ocupada com as suas actividades profissionais, com os programas televisivos de grande audiência mas por norma muito pouco edificantes, com a leitura de "revistas cor-de-rosa" e com a azáfama dos grandes empreendimentos comerciais. Intui-se a partir das actividades seleccionadas duas grandes características da sociedade portuguesa actual em que uma nos parece ser consequência da primeira. As dificuldades económicas e os problemas sociais dos portugueses provocam uma necessidade de evasão da realidade. A falta de recursos financeiros impede uma larga camada da população portuguesa de viajar, de ir frequentemente ao cinema ou ao teatro e de comprar livros com regularidade. Buscam assim, nas telenovelas e nas revistas "cor-de-rosa" o êxito alheio (mesmo quando produzido para uma revista ou programa específicos) o alheamento necessário para em seguida voltarem à sua realidade. As telenovelas funcionam como uma espécie de jogo do "faz de conta". Os adultos fazem de conta que estão a viver a vida das personagens: emocionam-se, riem, choram, identificam-se com umas e rejeitam outras do mesmo modo que as crianças brincam "aos pais e às mães" ou "aos médicos". Em ambos os casos assistimos a um "experienciar" de papéis que não os seus. No caso das crianças e segundo alguns autores estes jogos contribuem positivamente para que a criança passe a ver o mundo de diferentes perspectivas, que ganhe sensibilidade para a existência de diversos pontos de vista do mesmo facto. No caso do adulto consideramos que poderá igualmente ter esse contributo formativo mas parece-nos que o seu verdadeiro contributo reside no período de alheamento provocado. A par das condições sociais deficitárias encontramos igualmente uma população com um fraco nível de escolarização e em que a cultura não surge como uma necessidade. Assistimos a uma massificação do ensino em Portugal o que tem vindo a reduzir o número de analfabetos mas a educação e a formação não surgem, ainda, como uma prioridade. Não se tomou ainda consciência de que estas são os pilares da sociedade do futuro.
A pouca importância dada às manifestações culturais e ao número reduzido de livros lidos em Portugal não se coaduna com a massificação do ensino a que temos vindo a assistir há já várias décadas em Portugal. Massificação esta cujo objectivo visa a igualdade de acesso à educação para todos os indivíduos independente da classe social da qual são oriundos. Princípio nobre mas que não terá sido alcançado na sua totalidade em Portugal. Em primeiro lugar porque se cabe à escola minimizar as diferenças sociais e culturais que caracterizam os alunos seria necessário um investimento sério na educação. Quando falamos em investimento não nos referimos apenas ao investimento monetário mas a um investimento pessoal em todos os envolvidos no processo educativo. O professor não pode ser o psicólogo, o assistente social, o enfermeiro, o professor do ensino especial e o orientador vocacional que a escola não tem. Na maioria dos casos existe um psicólogo que tem a seu cargo vários estabelecimentos de ensino razão pela qual não dispõe de horas suficientes para ouvir, avaliar e tentar solucionar todas as questões para as quais é solicitado. Ao professor cabe estar atento aos comportamentos dos alunos, percepcionar comportamentos de risco e detectar as dificuldades de aprendizagem. Após realizar o levantamento de necessidades e de elaborar o diagnóstico correspondente o professor encaminhará, então os alunos para os profissionais competentes.
Não podemos continuar a encarar a educação das novas gerações com ligeireza, em muitos casos é necessário muito mais do que a boa vontade dos professores.
Urge uma rentabilização "da massa crítica" existente nas escolas e nas universidades. O diálogo entre as universidades e as escolas é fundamental que seja intensificado. Não é benéfico para nenhuma das partes envolvidas o corte do cordão umbilical existente entre a Universidade e os alunos que ingressam na vida profissional. Os professores dos vários ciclos de ensino constituem uma excelente fonte de informação para todos aqueles que se dedicam à formação de futuros professores. As dificuldades sentidas pelos docentes em termos pedagógicos e científicos teriam toda a pertinência se fossem sujeitas a uma reflexão em conjunto com os especialistas nas diferentes áreas do saber. O que contribuiria para se construir e partilhar conhecimento. Tornar exequíveis muitas das teorias que vislumbramos como ideais é muitas vezes difícil se não impossível o que não nos parece aplicável neste caso, se não vejamos: a formação de professores em Portugal que visa a creditação e a consequente mudança de escalão será o modelo ideal? Quem a faz? Quais as habilitações académicas que possui? Quem as avalia? Estas são apenas algumas questões que deixamos para reflexão. Atrevemo-nos, no entanto, a questionar se a Universidade não deveria criar laços estreitos com a escola e passar a ter a seu cargo a formação contínua dos docentes dos restantes graus de ensino. A troca de experiências e de saberes seria benéfica para ambas as partes. Facultaria uma proximidade maior dos professores universitários ao ensino secundário o que lhes permitiria reavaliar os curricula dos cursos da área educacional ministrados nas suas instituições. Caso considerassem pertinente introduzir alterações nos mesmos com vista a obterem uma melhor preparação científico-pedagógica dos futuros professores numa escola que já não é a mesma de há duas décadas teriam, já obtido, uma mais valia para a educação e para a sociedade portuguesa.
Os professores dos restantes níveis de ensino usufruiriam de uma actualização séria e rigorosa dos seus conhecimentos científicos e pedagógicos. Os resultados de investigações recentes feitas no âmbito das Ciências da Educação, obtidos a partir de estudos realizados em escolas reais e com elevados níveis de sucesso amontoam-se nas nossas bibliotecas não sendo experimentados noutros contextos educativos. Sabemos que cada turma é uma turma, que cada aluno é um aluno, mas face ao desespero em que muitos professores se encontram nas escolas de todo o país por não conseguirem "agarrar" determinadas turmas ou alunos poderemos nós em consciência, ignorar os trabalhos de investigação existentes?
Apesar deste estreitamento de laços entre a Escola e a Universidade ser positiva para ambas as instituições os alunos seriam, sem qualquer sombra de dúvida, os que mais lucrariam. E nunca é demais lembrar que a educação/formação que concedermos aos jovens de hoje terá consequências directas na sua vida profissional e no desenvolvimento do país.
Um outro aspecto que decorre da massificação do ensino diz respeito ao elevado número de alunos por turma. Será possível a um professor com uma média de 26 alunos por turma fazer um ensino personalizado em termos cognitivos e psicossociais? Detectar com rapidez e exactidão as dificuldades, as histórias familiares muitas vezes complicadas dos jovens com quem trabalha? Não podemos esquecer que estas informações são preciosas no início do ano não é a meio do ano lectivo. É necessário conhecer muito bem os alunos para poder ir ao encontro das suas expectativas, das suas dificuldades e especificidades. Se entendermos a função do professor como uma mera transmissão de conhecimentos, acreditamos que seja possível fazê-lo, mas se entendermos o acto de ensinar numa perspectiva mais ampla, em que se privilegie o desenvolvimento global do aluno parece-nos bastante mais complicado.
Reduzir o número de alunos por turma não seria uma tarefa complicada uma vez que existe um número considerável de licenciados em ensino que se encontram desempregados. O problema reside no fraco investimento na área educacional. Há, no entanto, a salientar que acreditamos no princípio da massificação do ensino e na escola pública portuguesa mas não temos dúvidas que a maior parte do sucesso obtido nas escolas do nosso país advém da paixão pela educação que nutrem a maioria dos docentes que lutam heroicamente contra a falta de meios.
Consideramos, igualmente, que temos de fazer uma aposta forte na criação de métodos de trabalho e de responsabilização dos alunos. Mais uma vez as famílias têm nesta matéria um papel essencial assim como os professores. Não podemos continuar a infantilizar os jovens, a desculpabilizá-los e a impedir o seu próprio desenvolvimento. A função dos adultos é apoiá-los em todas as vertentes da sua vida mas essa ajuda tem de visar a formação de um ser humano autónomo e responsável.
É fundamental que os pais e as famílias em geral se desloquem às escolas, acompanhem os êxitos e as dificuldades dos seus educandos, percepcionando sempre que o professor e a família são aliados e não adversários. Ambos têm um único objectivo proporcionar um ambiente que seja favorável às aprendizagens e à formação dos jovens. O professor não pode ser encarado pelas famílias dos alunos como uma espécie de "alvo a abater". Na verdade, parece-nos importante que o papel do professor na sociedade volte a ser valorizado. Ele é essencial em qualquer sociedade. A educação é, muito possivelmente, o único investimento seguro embora só seja visível a médio e a longo prazo.
A massificação do ensino efectuou uma mudança significativa e francamente positiva no que respeita à relação professor/aluno: o fim do autoritarismo. Urgia a sua substituição pelo simples reconhecimento da autoridade do professor. Não por ser possuidor de um conhecimento inquestionável, somos acérrimos defensores que o professor tem de ter sede de conhecimento, apostando na sua actualização científica e pedagógica. Conscientes de que o ser humano nunca é um produto acabado, o contacto com os jovens proporciona-nos igualmente variadíssimas aprendizagens, contribuindo, por exemplo, para uma maior proximidade entre gerações. A questão que levantamos é se ao invés desse estatuto de autoridade que cabe ao professor, enquanto adulto com responsabilidades na educação e formação das novas gerações não assistimos a uma desvalorização do seu papel. A ideia de que as crianças e os jovens não devem ser contrariados sob pena de poderem ficar com algum tipo de trauma ou de não deverem cumprir regras impostas parece-nos despropositada. Não há educação sem regras. O que estas devem é ser negociadas num clima de respeito e tolerância entre o adulto e o jovem. Para em seguida o adulto poder exigir o cumprimento das mesmas. A responsabilização é um factor determinante para um verdadeiro crescimento pessoal. A este respeito diz-nos Daniel Sampaio na crónica "É o momento" publicada posteriormente na sua obra Árvore sem voz:
O que importa é acentuar que muitos pais perdem de facto este instante, este momento de intervir, em que o exercício da autoridade parental não pode ser adiado. E o que vemos? Observamos muitos pais e professores a adiar, a deixar passar, a fazer de conta, na ânsia de que os seus filhos encontrem, sem traumatismos, o caminho que os libertará"
A necessidade de agir no momento certo parece ser crucial para que os jovens reconheçam o adulto enquanto figura de autoridade.
Atentemos agora ao preenchimento dos tempos livres dos alunos nas escolas básicas e secundárias. A forma como os alunos preenchem as suas horas livres na escola parece-nos igualmente merecedora de uma séria reflexão por parte de todos os envolvidos. Seria desejável que os tão desejados feriados fossem ocupados com actividades na biblioteca, nos clubes das diversas disciplinas, na companhia de um professor/tutor escalonado para ajudar os alunos interessados a realizar trabalhos de casa e a pesquisar. Ao esclarecerem as dúvidas resultantes do estudo que se encontrassem a realizar com o docente estávamos a esbater as desigualdades sociais existentes entre os alunos. Ao libertarmos as crianças das tarefas escolares aumentávamos consideravelmente a qualidade das relações familiares. Sabemos que o tempo que a maioria das famílias passa com as suas crianças é diminuto é, por isso, de evitar que este seja maioritariamente preenchido com a realização de trabalhos escolares.
No que respeita aos jovens adultos não será talvez possível libertá-los tão facilmente uma vez que o nível de exigência vai aumentando à medida que o aluno progride na escolarização. Basta, no entanto, que os trabalhos de casa sejam efectuados na escola para que o aluno apenas tenha de actualizar as matérias diariamente. Por outro lado, a hipótese dos jovens poderem usufruir de um leque diversificado de actividades na escola contribui para a construção de uma imagem bastante mais positiva dos estabelecimentos de ensino. O apelo da escola tem de ser cada vez maior só assim poderemos reduzir os elevados números de abandono escolar e contribuir para o desenvolvimento global dos alunos.
Elsa Martins