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15 de Junio del 2009
Literacias
O estudo da literacia é frequentemente sustentado em dicotomias como, por exemplo, literato vs iliterato e alfabetizado vs não alfabetizado e tem sido realizado, fundamentalmente, segundo duas perspectivas:

A literacia como um conjunto uniforme de técnicas e usos da linguagem, cuja prática pode ser analisada e organizada segundo níveis;
A literacia como um conjunto de competências diversas e mutáveis e que variam de acordo com os textos que se lêem, tendo, por isso, um carácter situacional, isto é, a literacia varia conforme o contexto no qual se desenvolvem e aplicam as competências, sendo por essa razão mais pertinente falar em literacias.

O termo "literato" é uma tradução directa do termo "literate" da língua inglesa com o significado de pessoa que sabe aplicar as competências de literacia que adquiriu.

O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (2001), define "literacia" de forma diferente. Aqui surgem duas definições, uma enquanto adjectivo, outra como substantivo:
  • "literato1 - Que possui ou denota cultura, saber; que é versado em assuntos literários ? erudito, letrado";
  • "literato2 - 1. Pessoa versada em literatura ou em letras ? letrado; 2. Pessoa que se dedica à escrita, à literatura ? escritor.".

Iremos utilizar o termo "literato" com o sentido que é usado em língua inglesa, ou seja, de alguém que sabe aplicar as competências e não alguém que simplesmente as possui ou adquiriu.

O conceito de literacia começou a ser, mais frequentemente, veiculado a partir da década de 90 do século XX. Historicamente, nas últimas décadas do século passado assistiu-se ao aparecimento de diversa literatura sobre este conceito, tanto como consequência do entusiasmo pela democratização da cultura como da necessidade de definir competências específicas nas diferentes áreas de trabalho.

Em Portugal, nas últimas décadas do século passado, quando se referia a capacidade de ler e escrever, utilizava-se apenas o termo alfabetização e não o termo literacia. Hoje, na primeira década do século XXI, a distinção é nítida e significativa pelo facto de o primeiro estar associado à frequência dos graus de escolaridade formal, e o segundo se aplicar às capacidades de compreensão da leitura e da escrita.

Associado ao conceito de literacia surge, frequentemente, um outro designado  em inglês por skill e que na língua portuguesa é traduzido  por competência.
Deve distinguir-se entre competência linguística e competência comunicativa. A primeira é definida como o "saber, interiorizado pelos falantes, das regras invariantes e variantes da sua língua" e a segunda como a "capacidade do falante nativo para produzir e compreender frases adequadas ao contexto. Saber interiorizado que lhe permite comunicar em situações sociais distintas."

O conceito de literacia surge associado à competência para ler e escrever e remonta à civilização grega, como recorda Eric Havelock em A Musa Aprende a Escrever (1988):

       "A literatura e a filosofia gregas representam empreendimentos gémeos da palavra escrita, os primeiros do género na história da nossa espécie, precisamente porque foram os primeiros e o que constitui exactamente a sua singularidade são questões que podem ser respondidas no contexto do que se denomina a revolução da literacia grega."

A transição do canto, da recitação e da memorização - incluídas na forma de comunicação, exclusivamente, oral - para a leitura e para a escrita foi subtil e progressiva.

A relação entre literacia e escola evoluiu de diversas formas. Durante o século XIX, havia os que acreditavam e defendiam os benefícios da escola de
massas, uma realidade emergente no século XIX, que retirava espaço às formas de alfabetização e escolarização informais voluntárias e alternativas então em ascensão na Europa.

Por outro lado, havia os tementes da ligação entre a aprendizagem da leitura e as classes sociais e economicamente desfavorecidas, que defendiam a restrição e o controlo do ensino da escrita e da leitura. Para estes últimos, havia o receio de que o conhecimento da leitura pudesse oferecer à classe trabalhadora o acesso a textos com visões alternativas e, consequentemente, uma maior individualidade e um poder que ameaçava a hierarquia social estabelecida.

Ainda hoje, embora em moldes diferentes dos do século XIX, se debate a ligação existente entre literacia e poder. Ou seja, já não se coloca a questão do direito à instrução, mas debate-se a posse de competências de literacia como garantia de acesso ao poder económico ou cultural.




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   Por: Elsa Martins   
            MIembro Consultor REDEM en Portugal