Em Portugal a massificação do ensino originou a existência de um elevado número de alunos por turma. Apesar de todas os benefícios daí decorrentes para a população em geral, nomeadamente no que respeita à igualdade de oportunidades consideramos que deveria ter sido contemplada a necessidade de se constituírem turmas com um menor número de alunos. Questionamos como é possível a um professor com uma média de 26 alunos por turma fazer um ensino personalizado em termos cognitivos e psicossociais? Detectar com rapidez e exactidão as dificuldades, as histórias familiares muitas vezes complicadas dos jovens com quem trabalha? Não podemos esquecer que estas informações são preciosas no início do ano não é a meio do ano lectivo. É necessário conhecer muito bem os alunos para poder ir ao encontro das suas expectativas e das suas dificuldades e especificidades. Se entendermos que a função do professor é apenas transmitir conhecimentos até acreditamos que seja possível fazê-lo mas se entendermos o acto de ensinar numa perspectiva mais ampla, em que se privilegie o desenvolvimento global do aluno parece-nos bastante mais complicado.
Reduzir o número de alunos por turma não seria uma tarefa complicada uma vez que existe um número considerável de licenciados em ensino que se encontram desempregados. O problema reside no fraco investimento na área educacional. Há, no entanto, a salientar que acreditamos no princípio da massificação do ensino e na Escola pública portuguesa mas não temos dúvidas que a maior parte do sucesso obtido nas escolas do nosso país advém da paixão pela educação que nutrem a maioria dos docentes que lutam heroicamente contra a falta de meios.
Consideramos, igualmente, que temos de fazer uma aposta forte na criação de métodos de trabalho e de responsabilização dos alunos. Mais uma vez as famílias têm, nesta matéria, um papel essencial assim como os professores. Não podemos continuar a infantilizar os jovens, a desculpabilizá-los e a impedir o seu próprio desenvolvimento. A função dos adultos é apoiá-los em todas as vertentes da sua vida mas essa ajuda tem de visar a formação de um ser humano autónomo e responsável.
É fundamental que os pais e as famílias em geral se desloquem às escolas, acompanhem os êxitos e as dificuldades dos seus educandos, percepcionando sempre que o professor e a família são aliados e não adversários. Ambos têm um único objectivo proporcionar um ambiente que seja favorável às aprendizagens e à formação dos jovens. O professor não pode ser encarado pelas famílias dos alunos como uma espécie de "alvo a abater". Na verdade, parece-nos importante que o papel do professor na sociedade volte a ser valorizado. Ele é essencial em qualquer sociedade. A educação é, muito possivelmente, o único investimento seguro embora só seja visível a médio e a longo prazo.
A massificação do ensino efectuou uma mudança significativa e francamente positiva no que respeita à relação professor/aluno: o fim do autoritarismo. Urgia a sua substituição pelo simples reconhecimento da autoridade do professor. Não por ser possuidor de um conhecimento inquestionável, somos acérrimos defensores que o professor tem de ter sede de conhecimento e aprendemos sempre quando nos relacionamos com outras experiências de vidas. O contacto com os jovens proporciona-nos variadíssimas aprendizagens e impossibilita-nos de envelhecer. A questão que levantamos é se ao invés desse estatuto de autoridade que cabe ao professor, enquanto adulto com responsabilidades na educação e formação das novas gerações não assistimos a uma desvalorização do seu papel. A ideia de que as crianças e os jovens não devem ser contrariados sob pena de poderem ficar com algum tipo de trauma ou de não deverem cumprir regras impostas parece-nos despropositada. Não há educação sem regras. O que estas devem é ser negociadas num clima de respeito e tolerância entre o adulto e o jovem. Para em seguida o adulto poder exigir o cumprimento das mesmas. A responsabilização é um factor determinante para um verdadeiro crescimento pessoal. A este respeito diz-nos Daniel Sampaio na crónica "É o momento" publicada posteriormente na sua obra Árvore sem voz:
O que importa é acentuar que muitos pais perdem de facto este instante, este momento de intervir, em que o exercício da autoridade parental não pode ser adiado. E o que vemos? Observamos muitos pais e professores a adiar, a deixar passar, a fazer de conta, na ânsia de que os seus filhos encontrem, sem traumatismos, o caminho que os libertará"
A necessidade de agir no momento certo parece ser crucial para que os jovens reconheçam o adulto enquanto figura de autoridade.
Atentemos agora ao preenchimento dos tempos livres dos alunos nas Escolas Básicas e Secundárias. A forma como os alunos preenchem as suas horas livres na escola parece-nos igualmente merecedora de uma séria reflexão por parte de todos os envolvidos. Seria desejável que os tão desejados feriados fossem ocupados com actividades na biblioteca, nos clubes das diversas disciplinas, na companhia de um professor/tutor escalonado para ajudar os alunos interessados a realizar trabalhos de casa e a pesquisar. O que lhes permitiria desfrutar da companhia dos familiares ao serão. Ao esclarecerem as dúvidas resultantes do estudo que se encontrassem a realizar com o docente estávamos a esbater as desigualdades sociais existentes entre os alunos.
A hipótese dos jovens poderem usufruir de um leque diversificado de actividades na escola contribui para a construção de uma imagem muito mais positiva do estabelecimento de ensino. O apelo da escola tem de ser cada vez maior só assim poderemos reduzir os elevados números de abandono escolar e sobretudo contribuir para o desenvolvimento global dos alunos.
Um outro aspecto merecedor de reflexão prende-se com a questão do diagnóstico das causas de insucesso dos alunos. Não nos parece eficaz continuarmos a propor quase mecanicamente os alunos para frequentarem aulas de apoio sem nos certificarmos se os maus resultados obtidos se devem a dificuldades de aprendizagem. As aulas de apoio são eficazes quando nos encontramos perante alunos que apresentam dificuldades ao nível da aquisição dos conteúdos. Mas continuarão a fazer sentido nos casos em que o insucesso se deve à falta de interesse pela disciplina em particular ou pela escola em geral? Parece-nos que não será através do aumento da carga horária e da expectativa do aluno em repetir o que ouve nas aulas estipuladas que o vão fazer empenhar verdadeiramente no processo de ensino/aprendizagem. No perfil do aluno que acabamos de apresentar encaixa, por norma, um elevado número de faltas, muitas delas injustificadas. O que nos leva a equacionar a pertinência de lhe aumentarmos a carga horária. Se o aluno falta às aulas que lhe estão estipuladas no horário melhor faltará às aulas suplementares. A única hipótese será cativá-los através de actividades que lhe sejam gratas para a partir daí irmos dirigindo as actividades para que nos propusemos. Se não o fizermos a taxa de abandono escolar vai continuar a aumentar e o número de jovens/ adultos sem qualificações para entrarem no mercado de trabalho agravar-se-á.
O contributo da investigação cientifica no âmbito das Ciências da educação é uma mais-valia para a prática educativa nas nossas escolas. Muito embora seja ainda necessário uma sensibilização dos Conselhos executivos e dos professores para os benefícios da investigação dentro das escolas e até para uma posterior formação dos docentes. Os alunos são os principais beneficiados desta actualização. Nesta medida destacamos o contributo da Psicologia da Educação por esta constituir um excelente instrumento para a compreensão da dinâmica das aprendizagens. Contemplando as idades dos sujeitos de aprendizagem por se encontrarem em níveis de desenvolvimento variado e não esquecendo as influências do meio sócio-cultural a que pertencem. Esta noção de que o conhecimento se constrói parece-nos essencial que seja compreendida por todos os envolvidos no processo educativo das crianças e dos jov.